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01/02/2026

Contra concursos de design

Comemoro cada estudante e colega profissional que vence concursos de design por meio de esforço, dedicação e compromisso com a área. Considero fundamental ver um de nós ocupando espaços públicos com a prática e o discurso especializados, pois isso contribui para o processo de construção de representações positivas da formação em Design e do exercício da profissão de designer.

Dito tudo isso, sou contra a realização de concursos de design: nova identidade para a instituição X, selo comemorativo para o aniversário da empresa Y, aplicativo para resolver o serviço governamental Z. Sou contra porque considero a proposta antiética e predatória, além de incentivar o esvaziamento do valor do processo de design, na medida em que supervaloriza os produtos da atividade do designer.

Neste texto, apresento oito argumentos contra os concursos e ofereço alternativas mais justas e éticas para promover o envolvimento de designers no debate público. Na medida do possível, cito concursos que ocorrem em áreas correlatas e outras formas de “competição leve” incentivadas entre diversos profissionais.

Os argumentos:

  1. Diferenças não triviais entre produto e processo
  2. Lições do passado (~1990s)
  3. Concursos não remuneram o processo
  4. Concursos não são bons para estudantes
  5. Concursos em outras áreas são diferentes
  6. Concursos dão exemplos e formam opinião
  7. Nem tudo se resolve com concursos
  8. Minha posição e experiência pessoais

Obs.: escrevo “Design”, “Arquitetura” e similares como nomes próprios ao me referir às áreas e “design” e “arquitetura” para falar das coisas que profissionais e estudantes dessas áreas fazem.

1. Diferenças não triviais entre produto e processo

Discuti a tensão mais persistente e importante da área em textos e vídeos anteriores, então pouparei o leitor dos pormenores da questão. Objetivamente, em contextos de pouco entendimento sobre o valor do Design, designers são remunerados e reconhecidos principalmente pelos resultados do seu trabalho, seja na iniciativa privada ou da administração pública.

O que é design (YouTube)

Nesses contextos, a percepção da qualidade do trabalho do designer se concentra na avaliação subjetiva do que é produzido – os “entregáveis”. O processo que leva ao entregável tem papel secundário e, muitas vezes, é fonte de impasses: “isso é simples de fazer”, “preciso para amanhã”, “é só mudar a fonte”, “quero só o logotipo”.

2. Lições do passado (~1990s)

Há ondas de valorização e desvalorização (as pessoas concordam ou não em pagar) do processo nos variados ramos da profissão, de modo geral acompanhando as tendências e interesses dos contratantes. Posso ilustrar a oscilação citando identidades visuais e interfaces digitais.

No final dos anos 1990, sites eram caixas-pretas que poderiam custar dezenas de milhares de reais, mesmo aqueles simples (estáticos, sem ferramentas de gestão de conteúdo). A falta de conhecimento sobre o tema permitia reivindicar valor para o processo e a infinidade de tecnologias espalhadas que traziam sites ao mundo, ainda que os resultados estivessem aquém das expectativas do contratante. Sabemos com a situação mudou e ferramentas de IA como Lovable, Figma Make e similares terminarão de acender as últimas velas de mais este velório.

Por outro lado, profissionais persistentes e modismos importados pela cultura do empreendedorismo abriram novos flancos no mercado digital, em que as entregas não são “produtos”, isto é, são análises (de requisitos, de usabilidade, da experiência do usuário, de dados), sistemas de padrões para interfaces digitais e estratégias de presença online. Não deixam de ter alguma dimensão concreta ou algum entregável que aparecerá em interfaces aqui e ali, embora a finalidade da contratação do profissional de design seja porque este domina processos, métodos e técnicas relevantes – design sprints, design thinking, design centrado no ser humano etc. Não obstante, essas opções balançam conforme os humores do mercado, bastando qualquer ruído ou novidade (p.ex., fusões, aquisições e inteligência artificial) para se iniciarem as demissões em massa que convertem líderes de times de pesquisa de UX em pilotos solitários de Figma.

Em Vitória (ES), até meados da década de 2000, eram poucos os profissionais que conseguiam comercializar “identidades visuais”. Agências de publicidade tinham a “criação de logomarcas” (já não implico com o termo equivocado) como regra, geralmente entregues no formato CDR em disquetes 3 ½ ou CDs devidamente etiquetados à moda Pimaco. Sem sistema de regras, sem manual, sem previsão para aplicações futuras, sem coerência de conjunto. Apenas “criatividade” e “boas sacadas”, sem nenhuma possibilidade de remunerar o profissional por coisas como “estratégia” ou “planejamento”. Pagava-se pelo resultado, e apenas se fosse “bom”, na avaliação de quem assinava o cheque.

O mercado capixaba precisou de anos e do esforço coordenado de muita gente boa para mostrar que o investimento no processo é bom para contratantes e contratados. Observei essas mudanças em outros cantos do país, pelos relatos dos meus colegas, com razoáveis diferenças conforme a região e características do arranjo produtivo. Sistemas de identidade visual, estratégias de marca e outras prestações de serviço sofisticadas que não se resumem a arquivos digitais de programas da Adobe são oportunidades recentes e que precisam ser defendidas.

3. Concursos não remuneram o processo

Concursos podem até valorizar o processo, mas não o remuneram. Quando alguém abre um concurso entre designers para a criação do novo logotipo, do selo comemorativo, do cartaz da feira, está reduzindo o trabalho do designer à entrega, ao disquete 3½ com o arquivo CDR. Pior, concursos impedem que designers tenham liberdade para estabelecer a remuneração esperada pelo processo, o que pode variar muito entre perfis, regiões e momentos da vida profissional. Isso simplesmente coloca designer contra designer, não porque cada um está defendendo seus interesses, mas porque o interesse do proponente do concurso causa o conflito.

Parte-se de um valor definido pelo contratante, uma espécie de leilão em que todos os lances são feitos ao mesmo tempo e pode-se escolher, arbitrariamente, a opção mais conveniente. Comissões avaliadoras que incluem designers ao menos reduzem o risco de se pagar apenas pelo que se “gosta”, pois os critérios técnicos são trazidos para o centro da seleção do melhor partido. A questão é que comissões com especialistas não são a regra (tenho mais a dizer sobre isso adiante).

4. Concursos não são bons para estudantes

Há quem defenda concursos por serem positivos para o currículo dos estudantes, pois dariam visibilidade ao trabalho deles. Eu poderia concordar com este argumento na década de 1960, quando a formação de nível superior em Design no Brasil estava engatinhando e precisávamos ser vistos. Nada disso se justifica no mundo conectado do século XXI, quando há oferta de sobra de profissionais e oceanos de informação acerca dos entregáveis de design.

O currículo de estudantes precisa, sem dúvidas, de experiências positivas, mas com supervisão, orientação e, preferencialmente, remuneração compatível com a complexidade do trabalho. Nada disso ocorre em concursos: lança-se o edital e deixa-se para o estudante o desafio de ser competitivo frente a seus pares. A concepção de que designers pertencem à classe média e que militam voluntariamente para elevar os padrões culturais da sociedade não pode estar mais longe da realidade. São trabalhadores e devem ser remunerados e respeitados.

O contraexemplo positivo quanto a currículos de estudantes são eventos do tipo hackaton e maratona criativa, principalmente promovidos por incubadoras e arranjos de inovação, em que ao menos se oferece mentoria, orientação e formação para estudantes. Compete-se com suporte, com oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Alguém vence e ainda assim os demais ganham alguma coisa.

5. Concursos em outras áreas são diferentes

É claro que existem concursos em áreas correlatas, tais como a Arquitetura e a Publicidade. Começando pela segunda, percebo que os problemas que citei podem persistir (preço fixo, falta de supervisão, oferta de visibilidade não se justifica), apesar de entender que há dinâmicas próprias das premiações no mercado de Comunicação que parecem gerar negócios a partir desses concursos. Ademais, e posso estar equivocado na minha análise, meus colegas publicitários não parecem considerar nociva a ideia de premiar “criatividade” e “boas sacadas”. Eles têm formas de considerar ambas enquanto processos, não apenas entregas.

Para mim, arquitetos são mais próximos de designers que publicitários, dadas as origens e orientações fortemente projetuais de ambas as atividades. Concursos de arquitetura e urbanismo têm duas diferenças que considero importantes, e que podem ser disputadas por colegas arquitetos. Em primeiro lugar, a maior parte dos editais dispõe sobre equipamentos públicos, tais como praças, monumentos, museus e afins, de maneira que reconhecem o valor do profissional de arquitetura na discussão dos melhores rumos para algo que beneficiará a coletividade, quase sempre envolvendo recursos públicos. Quanto mais gente competente estiver envolvida para buscar o melhor encaminhamento, melhor para o bairro, a cidade e assim por diante. Até aqui, o argumento poderia ser utilizado para justificar concursos da área de Design.

Em segundo lugar, e é aqui que as semelhanças acabam, o projeto arquitetônico é o começo da realização do benefício coletivo. Exceto nos casos de competição pura pela melhor ideia, sem consequências e que invoca todos os problemas dos concursos de logotipos, selos e afins, projetos arquitetônicos e urbanísticos terão um segundo momento quando recursos financeiros serão aportados para executar a obra. O trabalho dos vencedores continua e persistirá após construído, gerando oportunidades adicionais para aprender sobre a execução complexa de seu projeto na obra, e os desdobramentos do uso daquele equipamento pela comunidade.

O trabalho do designer termina com o resultado do concurso. Além da premiação incompatível com a remuneração esperada para o trabalho realizado, não haverá mais nada para os designers vencedores. A proposta apresentada, sendo escolhida ou rejeitada, é tudo que designers poderiam fazer sobre o episódio. Pode-se acompanhar os exemplares saindo da gráfica, a publicação do site, a fixação da placa e tirar fotos do trabalho executado para incluir no portfólio. Fim.

6. Concursos dão exemplos e formam opinião

A consequência mais severa da adoção de concursos como forma de se solucionar (ou criar) problemas de design é o precedente que abrem nas relações de trabalho. Retomando o exemplo do logotipo e do selo comemorativo, mais frequentes por aqui, a intenção pode ser muito boa: envolver a comunidade para marcar novos tempos na gestão de uma empresa, para celebrar muitos aniversários de uma entidade, iniciativa, localidade etc.

Uma grande empresa com décadas de operação poderia e, na minha opinião, deveria contratar profissionais ou empresas de design para dar conta da demanda. É um passo qualitativo no investimento daquela organização rumo à uma cultura interna permanente de Design, em vez de buscar investidas intermitentes e pontuais. Se Design é importante e não apenas cosmética, façamos o dever de casa. O mesmo pode ser dito das diversas esferas da administração pública, onde concursos para carreiras de design ainda são raridade.

Assim, quando a grande empresa quer celebrar a sua história ou a cidade deseja marcar progressos na vida de seus habitantes por meio de concursos, estão sugerindo ao mercado que este caminho não só é possível como é válido. É como se nos dissessem que a gestão pública não precisa de Design como política de governo, bastam concursos de tempos e tempos. E dizem mais: não importa se o seu negócio é de grande porte, com meio século de vida e 400 colaboradores, ou se você é uma microempresa familiar – pode-se resolver problemas de design com prêmios de R$ 2.000,00 e certificados de honra ao mérito (dá para pagar boletos com menção honrosa?).

Façam o exercício: lembrem-se dos últimos concursos envolvendo ramos do design na sua região. Avaliem o quanto os prêmios estavam distantes dos preços praticados por designers e empresas do setor. Inspecionem os termos do edital, incluindo prazos, exigências de entrega e direitos dos autores sobre o trabalho realizado.

Outro ponto importante, e que situa nosso problema em relação aos colegas publicitários e arquitetos, é a nossa falta de representatividade e de organização enquanto categoria. Se por acaso alguma competição fere aspectos éticos do exercício profissional daquelas áreas, há uma série de organizações que saem em defesa da classe: conselhos, sindicatos patronais, associações profissionais e institutos dedicados à promoção e defesa dos interesses daqueles grupos. A ausência de entidades fortes que defendam a área deixa as portas abertas para qualquer um dizer os termos pelos quais nosso trabalho deve ser feito e quanto vai custar.

Temos associações profissionais de designers importantes e atuantes no Brasil, embora ainda de alcance regional limitado e baixa capacidade de mobilização. A luta pela regulamentação da profissão exemplifica o cenário: outras categorias, mais recentes no país e que se mobilizaram depois dos designers, conseguiram apoio legislativo para criarem os mecanismos que regulam o exercício de suas profissões, enquanto a luta no Design permanece. Se não temos força para questionar concursos que desvalorizam a profissão, quanto mais para fazer lobby em Brasília, para lutar por pisos salariais e direitos trabalhistas, para pleitear políticas públicas setoriais... (para citar as questões mais urgentes).

7. Nem tudo se resolve com concursos

Pessoas realmente interessadas em criar oportunidades para que estudantes mostrem suas habilidades e competências para a sociedade podem criar concursos sobre trabalhos já feitos. Foi isto que propusemos a partir de 2010, quando criamos a primeira edição de um prêmio de design na semana do Curso de Design da Universidade Federal do Espírito Santo.

O formato é simples e o efeito é o mesmo: monta-se uma comissão que avalia trabalhos concluídos no âmbito das disciplinas de graduação e premia-se aqueles que se destacaram em critérios técnicos, criativos, de “boas sacadas”, o que valha. Não há trabalho adicional para estudantes, pois tudo foi produzido nas aulas sob supervisão do professor. Mesmo assim, há devolutivas novas quanto aos trabalhos e reconhecimento social, especialmente se a comissão avaliadora incluir profissionais atuantes no mercado e que são contratantes em potencial dos estudantes. Este formato obviamente funciona, já que foi inspirado nas Bienais de Design, que desempenham o mesmo papel para empresas e profissionais da área: reconhecer e celebrar o bom serviço prestado.

Outra possibilidade, citada anteriormente, consiste em eventos de variadas durações em que estudantes são orientados e supervisionados por profissionais enquanto tentam projetar respostas para problemas de interesse público ou privado – hackatons, maratonas criativas e coisas do gênero. A premiação, nesses casos, ajuda, mas não é o único atrativo. Valem ainda mais o contato e a interação com profissionais mais experientes que podem, no pior cenário, resultar em novas experiências em áreas pouco exploradas. No melhor cenário, a participação fortalece a rede de contatos para o futuro, tanto de possíveis clientes quanto de parceiros.

Se não houver alternativas aos concursos como critiquei neste texto, no mínimo pode-se convidar profissionais da área para contribuírem com a redação dos termos do edital e para definirem remunerações justas e entregas compatíveis com a premiação. Praticar valores ligeiramente abaixo daqueles indicados pelas empresas de referência na região, mas acima daquilo que um estudante receberia, pode ser boa sinalização de equilíbrio.

Por fim, é possível envolver as pessoas no desenvolvimento de projetos sem que isso funcione como concurso. No meu caso, atuando em uma universidade que conta com cursos de graduação de áreas que poderiam atuar nessas ações, concursos deveriam ser a última opção. Se os servidores de uma unidade entendem que precisam de, por exemplo, nova identidade, a gestão poderia buscar aqueles cursos e promover diálogos entre professores, disciplinas, estudantes e as pessoas afetadas. Isso contribui para que aqueles que cuidarão do projeto, depois de pronto, sintam-se parte do processo que foi conduzido e corresponsáveis pela manutenção dos resultados.

Outras instituições públicas poderiam (ou deveriam) seguir caminhos semelhantes. Dá trabalho, mas se é importante, tem que dar mesmo.

8. Minha posição e experiência pessoais

No que diz respeito a concursos direcionados a profissionais de Design, com remuneração incompatível, prazos irreais e nenhuma contrapartida, sou obviamente contra. E que fique explícito que sou contra a oferta e não à decisão de participação de estudantes e profissionais. Essa parte merece mais algumas linhas.

Cada designer tem o direito de avaliar os prós e contras de se envolver em concursos nocivos como os que descrevi. Comentei na abertura deste texto que é o mercado que não compreende o valor do Design e se abre para este tipo de relação antiética. As pessoas que tentam trabalhar nesses cenários adversos acabam precisando correr riscos para se estabelecer. Quem nunca começou um trabalho sem receber o sinal de entrada, ou aceitou reduzir preços a ponto de trabalhar quase de graça para não perder o cliente?

Dito isso, os papéis da administração pública, grandes empresas e instituições da sociedade civil são fundamentais na construção da representação da formação, da profissão e do profissional. Concursos, chamamentos públicos e outros convites a profissionais de projeto podem direcionar, ou no mínimo influenciar, os termos dos acordos estabelecidos entre contratados e contratantes.

Cerca de 20 anos atrás, participei como jurado de concurso para a criação de novo logotipo para um hospital filantrópico do ES. Foi naquele momento que comecei a refletir sobre os aspectos nocivos dessas ofertas, ainda que aquele edital tenha sido corretamente elaborado, executado e mantido – havia professores e profissionais da área na comissão avaliadora, o hospital desempenha funções essenciais para a população e a identidade segue em uso até hoje. Não pude localizar o edital para atualizar os valores nominais da premiação para montantes atuais e, se não me engano, o projeto vencedor foi desenvolvido por estudantes.

Repetindo a argumentação inicial deste texto, comemoro cada estudante e colega profissional que vence concursos de design por meio de esforço, dedicação e compromisso com a área. Ocupar espaços públicos com a prática e o discurso especializados do designer contribui para o processo de construção de representações positivas da formação em Design e do exercício da profissão de designer.

Justamente pela importância, isso não pode ser feito de qualquer jeito.


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