em Artigos

Astronautas meritocráticos

A quem interessar possa, o futuro ministro da ciência e tecnologia do Brasil atualizou o currículo Lattes [1] pela última vez em 2012. Segundo o currículo, o astronauta nunca publicou um artigo revisado por pares em periódicos científicos nacionais ou internacionais. Nunca apresentou trabalhos em eventos científicos de qualquer natureza. Nunca foi bolsista de iniciação científica, de extensão ou de produtividade do CNPq. Nunca foi professor de instituição de ensino superior ou técnico, pública ou privada. Não constam em seu currículo patentes, registro de software ou outros tipos de produção intelectual. A última titulação (mestrado) data de 1998, ano em que eu era calouro na Ufes.

As únicas publicações do futuro ministro são livros de memórias sobre a primeira missão espacial brasileira. Atuou como revisor do periódico (?) “Revista Escola Particular”. Recebeu muitas medalhas e comendas, nenhuma por produção científica relevante ou por contribuições fundamentais para o avanço da ciência brasileira. Ele palestra basicamente sobre a sua experiência como astronauta.

Sua dissertação de mestrado, “Polarization Effects on Infrared Target Contrast” (1998), tem seis (6) citações no Google Scholar [2], sendo a última em 2014.

Para muita gente fora da academia, essas informações não querem dizer nada. Para essas pessoas, mesmo assim o astronauta poderá ser um excelente ministro de CT&I, decidindo inclusive os rumos do ensino superior brasileiro. Afinal, ele “estudou no ITA” e “trabalhou na NASA”. O currículo pode estar “simplesmente” desatualizado.

Mas, se eventualmente você estiver em dúvida, pense que meu currículo de cientista de merda (devidamente atualizado) daria uma surra no currículo de astronauta. Atente para o fato de que me antecipei e graduei meu currículo (“de merda”) antes de fazer a comparação. Ele levaria uma surra porque há regras, etapas, badges, achievements, pompa e circunstância nas carreiras de docência e de pesquisador, na Ufes ou na NASA. A comparação é parcialmente válida, pois não estamos na mesma área. Seja como for, há centenas de cientistas aeroespaciais brasileiros (de merda) capazes de dar a mesma surra e os motivos são simples.

Em qualquer grupo de discussão de professores e pesquisadores do país, são recorrentes os assuntos da cobrança crescente por produtividade (publicações, patentes etc); do autofinanciamento dos grupos de pesquisa (que depende de ser produtivo); da atuação na pós-graduação (orientações de mestrado e doutorado, regularidade e qualidade nas publicações) em paralelo à graduação; da construção de redes de colaboração e cooperação nacional e internacional; e, principalmente, da urgência de se explorar o potencial da ciência brasileira no desenvolvimento do país.

Pelos últimos dados que eu encontrei [3], há cerca de 228 mil doutores e 372 mil mestres no Brasil. Se ainda assim você acredita que a indicação do ministro é técnica e não política, eu posso citar o episódio de Miguel Nicolelis [4]… Aquele cientista que desenvolve interfaces cérebro-computador e construiu o exoesqueleto do “ponta pé” da Copa de 2014; que tem índice H de 82 (meus ídolos mal mal passam dos 50 pontos); que implantou um centro de pesquisa de neurociências em Natal integrado a um museu de CT&I, numa comunidade que mal mal tinha escolas decentes; e que desde o início do governo Temer tem sido sistematicamente boicotado.

Dizem que Nicolelis foi beneficiado (e prejudicado) por sua proximidade política com os governos do PT. Se foi, pelo menos o currículo disfarçava. E o astronauta?

Comente

Comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.