em Pós-Doutorado

Pós-doc #9: carreiras docentes, iniciações científicas e o Loop

Hoje, 18 de outubro, aconteceu o primeiro momento da XXVIII Jornada de Iniciação Científica da Ufes, na Semana do Conhecimento. O Loop, laboratório que coordeno, participou de jornada com dois projetos desenvolvidos em parceria com a CuidarTech, laboratório de tecnologias fundado no Departamento de Enfermagem e com forte atuação no Mestrado Profissional da instituição.

Por incrível que pareça, após quase dez anos de Ufes, esta foi minha primeira participação em jornadas de iniciação científica. Na graduação não tive este privilégio, pois praticamente não se falava em pesquisa no meu curso. Como docente, fiz apenas uma tentativa de orientar iniciações científicas em 2010-2011, sem resultados. Mesmo que tenham sido projetos voluntários (sem bolsas), eu não tinha maturidade ou experiência para saber como conduzir o processo e terminamos por não entregar nada em nenhum dos cinco projetos. Como de costume, tentei dar um passo maior que a perna e arrisquei fazer cinco vezes ao mesmo tempo algo que nunca havia feito. Cabe mencionar que desenvolvi as iniciações com estudantes incríveis e altamente produtivos no então Núcleo de Interfaces Computacionais (NIC, 2009-2011), bisavô do Loop. Todos seguem me dando orgulho até hoje, depois de formados. O problema foi exclusivamente de (falta) de experiência do orientador.

Hoje, observando a lógica de funcionamento da iniciação científica bem-sucedida no Design e em outros cursos, começo a entender como se dá essa dinâmica. Eu escrevi anteriormente sobre minhas dificuldades e dúvidas sobre a carreira acadêmica. Fichas caem lentamente.

CuidarTech e Loop na XXVIII Jornada de Iniciação Científica da Ufes

Jornadas de iniciação científica integram meus questionamentos sobre o que realmente estamos fazendo nas universidades. É um evento incrível, repleto de alunos com os olhos brilhando e alimentando expectativas sobre seus futuros como profissionais e pesquisadores. Certamente se eu tivesse experimentado esse circuito, teria compreendido que não se trata de descobrir o grafeno ou sequenciar o DNA humano, mas preparar a próxima geração de orientadores que manterão as jornadas acontecendo.

Eu demorei a entender a função da iniciação científica, sendo que compreendi mais rapidamente os focos do ensino e do extensionismo. As dificuldades em 2010-2011 tiveram relação com minhas expectativas sobre as descobertas que meus orientandos tinham que fazer por conta própria, como eu mesmo fiz, já que não tive oportunidades orientadas e estruturadas de aprender o processo de pesquisa. Entretanto, hoje a iniciação me parece mais um espaço seguro para que os estudantes de graduação experimentem o exercício de pequenas descobertas, que cabem no tempo, habilidades e interesses deles, e que podem perfeitamente não servir para mais nada além de despertar seus sonhos rumo a potenciais e promissoras carreiras acadêmicas.

No evento de hoje pude ver muitos projetos pequeninos, explorando problemas pontuais e promissores. Observei avaliadores fazendo perguntas interessantes e profundas a alunos de graduação, que foram treinados a vida toda a responder o que o professor queria ouvir e, naquele momento, tinham que responder o que pensaram por conta própria (mesmo que orientados). É bonito.

Historicamente, o Loop tem sido um laboratório de extensão extremamente bem-sucedido com eventuais publicações que resultam das iniciativas extensionistas ou da necessidade de publicar relatos delas. Na prática, isso significa colocar a pesquisa como consequência da extensão e sempre achei tal modelo mais rico do que pesquisas realizadas por si mesmas. O problema é que, ao restringir a pesquisa à publicação dos resultados da extensão, o processo de pesquisa em si não é experimentado pelo estudante. Eles foram lá, fizeram e aconteceram na extensão, inclusive pesquisando bastante. O problema é que o jogo da pesquisa tem regras próprias, que também precisam ser experimentadas em primeira mão, se o objetivo for preparar a próxima geração de pesquisadores que darão continuidade às futuras jornadas. Tenho sido um pesquisador isolado bem produtivo e um péssimo orientador de pesquisas.

O pós-doutorado me fez repensar muitas questões em relação ao papel do ensino na graduação, e também me levou a elaborar críticas mais objetivas [1, 2 e 3] para traçar objetivos de médio e longo prazo tanto para a pesquisa que faço sozinho quanto nas orientações de estudantes de graduação. Tenho planos de ingressar em programas de pós-graduação como orientador e, nem tão surpreendentemente, entendo melhor o que fazer em mestrados do que em iniciações científicas.

O Loop passará por profundas mudanças em 2019, não apenas em função do meu amadurecimento como parte da engrenagem que forma profissionais e eventualmente pesquisadores. O cenário que se desenha para o país requer estratégias que superem o papel da iniciação científica como preparação das futuras gerações de pesquisadores.

Provavelmente precisaremos transformar a pesquisa em fonte de recursos para manter as bolsas dos estudantes (não estou falando dos atuais R$ 400), para melhorar a infraestrutura dos laboratórios (não estou falando de editais de R$ 15mil para comprar equipamentos uma vez ao ano) e para transferir conhecimento da universidade para a sociedade (não estou falando de posters que são expostos e avaliados em 2h).

Uma das melhores lembranças que tenho do bisavô do Loop, o NIC, era meu pensamento de mercado tentando ser autossuficiente. Era recém-chegado na universidade e, em vez de utilizar os canais sistêmicos de editais de iniciação científica ou extensão, busquei empresas interessadas em investir em pesquisas acadêmicas. Deu mais errado do que certo, mas ainda assim criamos as bases de tudo que existe no Loop hoje e que funciona dentro do sistema.

Felizmente, desde 2016 temos marcos regulatórios (Lei nº13.243/2016) que tornam minhas tentativas de aproximação com empresas menos arriscadas. Se a dinâmica de financiamento das universidades públicas mudar como estou esperando, chegou a hora de fundir os dois modelos: formar gente para a academia e para o mercado, nas mesmas iniciativas. 

Epílogo

Sou profundamente grato à professora Cândida Primo e colegas do Mestrado Profissional em Enfermagem que integram a CuidarTech. Elas me permitiram aprender como se faz iniciação científica de qualidade sem precisar morrer no percurso. A parceria com o laboratório delas me mostrou que é possível fazer pesquisa útil tanto para as 2h de exibição em posters nas jornadas de iniciação científica, quanto para melhorar concretamente a vida das pessoas.

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