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Sobre riscos, eleições e percepções diretas

Experimento do visual cliff de Eleanor J. Gibson e Richard D. Walk

Votei em Lula 2002 e 2006 por motivos que não me levarão a votar no PT no 1º turno deste ano. Mesmo com o pânico da Carta ao Povo Brasileiro, havia esperança de mudanças. Algumas importantes vieram, outras não. Não tivemos reforma agrária, política, tributária, previdenciária, do sistema financeiro, habitacional, nem da propriedade cruzada dos meios de comunicação, para ficar nos clichês. O partido se demonstrou tão sedento de poder quanto aqueles que criticou enquanto esteve na oposição. A agenda popular avançou, porém o custo foi muito alto.

Por tudo isso, em 2010, votei na Marina no 1º turno e anulei meu voto no 2º. Não confiava na Dilma e continuo sem confiar no Serra. Fiquei positivamente surpreso com a alternativa despolarizante que a Marina e seus 20 milhões de eleitores representaram naquele ano.

Em 2014, tentei Marina novamente no 1º turno. Provavelmente não teria tentado, caso Eduardo Campos fosse o cabeça de chapa. Tinha muitas dúvidas sobre ele, muitas das quais seguirão como dúvidas. Cito Marina, na (excelente) entrevista a Glenn Greenwald: apure-se o que tiver que ser apurado, mas ele não estará mais aqui para se defender. Tinha ainda mais dúvidas sobre Aécio, e essas estão todas sanadas. Apliquei o tal “voto útil” em Dilma para assistir o PSDB destruir deliberadamente a nossa incipiente democracia ao não aceitar o resultado das eleições em 2014.

Entretanto, não acho que o PSDB seja o pai solitário da crise. Tivemos os protestos 2013, que poucos políticos entenderam exatamente as consequências. Tivemos o oportunismo do judiciário, surfando na lama do legislativo e executivo enfraquecidos para atropelar a separação dos poderes. Mas também tivemos o fato de que PT não é um partido fácil. Abandonaram Dilma, com Lula Livre e tudo, na gestação das medidas econômicas equivocadas que seriam utilizadas para justificar o impeachment. Fogo amigo é fogo, do mesmo jeito. Chamuscada, Dilma está distante da campanha nacional petista deste ano, mesmo com a retórica do golpe sendo um dos pontos centrais.

Haddad deixou bem claro o modus operandi do partido no artigo para a Piauí em 2017. A interpretação que fiz da catarse do então ex-prefeito apontava, equivocadamente, para uma debandada do PT e eventual coalizão com forças progressistas mais moderadas. Na época, eu só conseguia pensar que Ciro e Haddad organicamente associados (leia-se sem os “biletes” de Curitiba) seriam a “virada moderada dos sonhos”.

Infelizmente, a sede de poder do PT não é diferente da sede do PSDB ou do centrão. Os caciques de todos os partidos fizeram a opção de colocar o país como acessório de seus respectivos projetos de poder. A metáfora da dança na beira do abismo deixou de ser figura de linguagem para se tornar o prelúdio do que está por vir. Eu prefiro outro exemplo, mais naturalista, para entender nossa situação.

Esquema do visual cliff

Nos anos 1960, Eleanor J. Gibson e Richard D. Walk (Cornell) projetaram um aparato para investigar a aprendizagem perceptiva em bebês e animais – o visual cliff.  Resumidamente, eles descobriram que crianças pequenas não têm medo inato de altura, aprendendo a avaliar os riscos à medida em que se desenvolvem e aprendem a engatinhar. A percepção do risco (e o medo) surgem da interação com situações concretas no ambiente, ainda que todos os mecanismos para a percepção e a aprendizagem do risco estejam potencialmente presentes no código genético no momento do nascimento. Em outros termos, é a experiência na situação que cria as condições para a aprendizagem.

Bebês que aprenderam a engatinhar hesitam em atravessar o aparato, mesmo com o chamado afetuoso da mãe no outro lado. Eles ainda não falam, se expressam de forma limitada e, por razões que garantiram que nós estivéssemos aqui em vez de outro membro do gênero Homo, o mecanismo identificado por Gibson e Walk funciona perfeitamente para evitar movimentos arriscados. A abordagem gibsoniana é ecológica, de forma que a realidade em que o bebê vive é aquela que percebe diretamente. Não há outro mundo “real” a ser percebido corretamente pela percepção “imprecisa” do bebê. Ele habita o mundo que percebe e percebe aquilo que habita (nota mental: mencionei outras possibilidades explicativas para fenômenos perceptivos semelhantes antes).

No último domingo (30/09), tive a oportunidade de ver muitos amigos eleitores históricos do tucanato declarem voto e participarem das mobilizações #EleSim em Vitória. Diferente do protesto do sábado, do qual eu participei e que foi nitidamente suprapartidário, os manifestantes do domingo são anti-PT acima de tudo. A opção pelo candidato do PSL é utilitária, travessia que ignora o risco pela pura falta de experiência na agenda mais perigosa do candidato. Entretanto, o tipo de experiência que falta não é do mundo da política. Pelo contrário, eles experimentaram 14 anos do mundo lulopetista e acham que o capitão é um mal necessário (como foi Eduardo Cunha no impeachment) para impedir que Haddad redirecione o país.

Por outro lado, nós, que fomos às ruas no sábado, temos experiências de mundo que nos ensinaram bastante sobre outros tipos de riscos. O mote #EleNão, qualquer coisa menos ele, tudo menos ele e afins não é pró-PT. As pautas contra o racismo, misoginia e homofobia não são exclusivas nem de partidos de esquerda nem daqueles que foram e são vítimas de violências e preconceitos. Ainda assim, qualquer ser humano que integre os grupos que são alvos de ataques explícitos do grupo político do líder das pesquisas (mulheres, negros, lgbts, índios) ou não tão explícitos (trabalhadores, professores, pobres) encontra na figura do candidato a percepção direta do risco da queda, para retomar os termos gibsonianos.

O que eu percebo, como professor, é que se ele for o próximo presidente, eu não poderei falar o que penso em sala de aula. Eu percebo que serei lembrado sistematicamente, por pronunciamento, ato administrativo ou política pública, que meu trabalho é enviesado e ideológico, mesmo sendo assumidamente liberal; que sou inatamente preguiçoso e indolente, por ser negro, descendente de escravos e índios; que a História com H maiúsculo, é parcial, mentirosa e que não houve golpe em 1964 nem execuções de inocentes, mas “revolução resultante de anseios populares” e “baixas” em ambos os lados. Percebo que trabalhadores terão cada vez menos direitos (“as jabuticabas“), já que há igualdade de oportunidades no país e aqueles que não chegaram ao sucesso não se esforçaram o suficiente para desfrutar da meritocracia instalada. 

Apesar de receber críticas raivosas e ser rotulado como petista por minhas posições progressistas, voto moderadamente desde 2010 e farei o mesmo neste ano (Ciro). Desejo sorte a você, meu amigo que diz #EleSim e que está disposto a correr todos os riscos para evitar o PT.

Em contrapartida, você está desejando que aqueles que dizem #EleNão experimentem diretamente todos os riscos que indiquei com as devidas fontes. Ele deixou bem claro o que pretende além de não deixar o PT no governo.

Infelizmente, para todos nós, o penhasco do autoritarismo é suficientemente largo e, mais cedo ou mais tarde, convida todos a apreciarem a queda.

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