em Pós-Doutorado

Pós-doc #6: Por que não há debates nas publicações acadêmicas de Design no Brasil?

A pergunta não é retórica nem é caça-cliques. O recorte que faço exclui debates em bancas de defesa de trabalhos de conclusão, dissertações e teses; ignora possíveis discussões em apresentações de trabalhos em eventos científicos da área; não considera listas de discussão, textão em Facebook e LinkedIn ou threads intermináveis no Twitter.

Por que não há debates nas publicações acadêmicas de Design no Brasil?

O épico debate sobre a natureza humana entre Michel Foucault e Noam Chomsky na Holanda, em 1971 [Vídeo].

Contexto da pergunta

Sou parecerista de três periódicos nacionais da área [1, 2, 3], sendo dois deles (provavelmente) os de maior relevância (Qualis) e popularidade. Revisei dezenas de artigos em edições sucessivas de um dos principais eventos de pesquisa do país [4]. Do mesmo modo, participei de comissões organizadoras de eventos acadêmicos no Design e na Psicologia.

Eu nunca li nem avaliei um único artigo científico brasileiro da área de Design cuja principal razão de ter sido escrito foi questionar (para confirmar ou refutar) os argumentos apresentados em outro artigo. Tampouco li tentativas de replicação de qualquer estudo publicado previamente, com intuito de discutir o método, os dados encontrados ou as inferências realizadas.

Minha experiência como pesquisador e avaliador naturalmente não garante ausência de viés na amostra que gerou o questionamento. Por outro lado, estou envolvido com pesquisa em Design (publicando, lendo) ao menos desde que me formei (2003), quando também comecei a participar de bancas de trabalhos de conclusão. Atuo como parecerista de eventos de pesquisa desde o ingresso no doutorado (2010), de periódicos desde a defesa da tese (2014) e oriento trabalhos de conclusão desde 2008. Na primeira metade do meu pós doutorado (fev-jul/2018), realizei revisões sistemáticas de artigos publicados em periódicos nacionais de Design ao longo dos últimos cinco anos. Em cada uma das oportunidades citadas, nas quais precisei dialogar com referenciais teóricos da área de Design, a lacuna estava colocada: nenhum sinal de debate.

Não há dúvidas de que tenho pouco tempo de carreira acadêmica (~14 anos) para fazer o questionamento. Ao mesmo tempo, também não há dúvidas de que, do ano em que entrei na graduação até o presente (~30 anos), a pesquisa em Design cresceu exponencialmente, seja pelo aumento no número de programas de pós-graduação (e de mestres e doutores), seja pela quantidade e qualidade de eventos, periódicos, livros e outras modalidades de produção científica. Sendo assim, por que [ainda] não há debates nas publicações acadêmicas de Design no Brasil?

Qual é o problema?

A melhor forma de explicitar as dificuldades decorrentes do meu questionamento é reproduzir argumentos frequentes sobre a situação da pesquisa em Design no país. Os exemplos a seguir cobrem apenas contra-argumentos que ajudam a esclarecer minha indagação, excluindo fatores de ordem política (sucessos ou insucessos de políticas públicas de C,T&I), econômica (financiamento, relacionadas ou não àquelas políticas) ou de recursos humanos (quantidade e qualidade de pesquisadores em atividade).

O Design é uma ciência jovem, então ainda precisaria de tempo para conformar o campo e qualificar seus debates.

Assumindo a intenção daqueles que tentam inscrever o Design entre as ciências (não é o meu caso), a situação se tornaria ainda mais grave. Estamos no século XXI e, para chegar no desenho geral da ciência que temos hoje, enfrentamos inúmeros avanços, retrocessos, crises, rupturas e reinvenções de métodos, técnicas, fundamentos filosóficos e paradigmas epistemológicos. 

Nada disso tem relação, no meu julgamento, com a maturidade da área X ou Y. A prática científica naturalmente varia entre as disciplinas, porém há características suficientemente gerais que conferem identidade ao cientista em seu papel social.

Este papel implica, dentre outras atividades: a) dialogar com aqueles que o precederam (por meio da revisão de literatura); b) empregar estratégias de comunicação de seu trabalho de forma a facilitar a compreensão, pela comunidade, dos problemas de pesquisa, métodos utilizados, resultados encontrados, inferências feitas a partir deles; e, principalmente, c) permitir a crítica do que foi apresentado.

A prática esperada nos moldes mencionados estabelece (ou tenta estabelecer) relações de pertencimento à comunidade científica. Se escreve de certa forma porque assim escreveram aqueles que nos antecederam, bem como aqueles que lerão o que escrevemos esperarão conformações típicas. Entretanto, ler e escrever não são fins em si mesmos: escrevemos para sermos lidos; lemos para fazer a reflexão e a crítica (do problema, do método, dos dados etc.); a crítica introduz debates e é o debate que contribui para o avanço do campo, em geral, e para a carreira do pesquisador que publicou o trabalho, em especial.

Se a pouca maturidade da pesquisa em Design responde minha pergunta, certamente o faz explicitando a ausência da crítica e do debate. E, se for assim, retornamos à estaca zero do questionamento. 

O Design é uma ciência aplicada, então as pesquisas da área aplicam conhecimento básico gerado pelas ciências “duras”. Tal aplicação se dá por processos de produção, divulgação e discussão distintos daquelas ciências. 

Dedicar-se à aplicação de conhecimento básico não isenta o pesquisador de participar dos processos de produção, divulgação e discussão daquilo que produz, muito menos daquilo que aplica, ainda que gerado por terceiros. Pelo contrário, as ciências aplicadas são a prova de fogo da ciência básica, pois acabam transportando os achados do “laboratório” para o cotidiano.

Tal transporte é (ou deveria ser) essencialmente crítico. A adoção de métodos, instrumentos, escalas, teorias, leis, axiomas e afins nas pesquisas que realizamos implicaria, minimamente, reflexões sobre o desempenho daqueles conhecimentos no contexto em que foram aplicados. O método apresentou dificuldades? O instrumento de fato contribuiu para a coleta dos dados? A escala precisa ser revalidada para contemplar fatores regionais? A teoria auxilia na análise e interpretação do fenômeno ou deixa lacunas que sugerem revisões?

Os riscos da aplicação acrítica de conhecimento gerado por terceiros são variados. O pesquisador, se assim proceder:

  1. Ignorará desenvolvimentos posteriores daqueles conhecimentos na área de origem, incluindo críticas e refutações;
  2. Delegará ao autor da teoria de base (equivocadamente) a responsabilidade solitária sobre a revisão de suas ideias;
  3. Assumirá o bônus e se isentará do ônus da aplicação, uma vez que críticas às teorias de base não implicarão diretamente o seu trabalho.

Os riscos merecem ilustrações. A pesquisa em Design coleciona referências básicas que estão, aparentemente, acima de críticas por parte da comunidade científica brasileira. Na minha área de pesquisa, a Psicologia da Gestalt ainda é o principal referencial para o funcionamento perceptivo dos seres humanos. Não estou sugerindo que parte dos pesquisadores insiste em citar Köhler, Koffka e Wertheimer, pelo contrário. São infinitamente mais comuns as referências secundárias (Kepes, Arnheim, Dondis, Lynch, Gombrich) e terciárias (Lupton, Gomes Filho), sem que os “aplicadores” assumam as consequências conceituais e práticas daquelas escolhas. Em situação semelhante, as heurísticas de Nielsen, criadas há quase 40 anos, seguem pautando a usabilidade de interfaces e dispositivos criados ontem.

Quais seriam as alternativas? Trabalhos que justificam escolhas de projeto ou pesquisa adotando certos princípios podem ser questionados utilizando teorias contrárias? Deveriam. Artigos que justapõem teorias incompatíveis, ainda que o objetivo do trabalho não seja a combinação, deveriam ser questionados? Sem dúvidas. Idealmente, a aplicação prática e crítica dos princípios e teorias geraria questionamentos, talvez não na mesma escala dos críticos que retornam ao laboratório para elaborar as réplicas.

[ Interlúdio: Tenho sérias dificuldades no processo de revisão dos artigos que recebo de periódicos porque quase sempre elaboro pareceres que incluem críticas epistemológicas ao conteúdo. Em certa medida, fico “trocando ideias” nos formulários de avaliação. Não tenho certeza sobre como os autores recebem as críticas. Alguns sistematicamente ignoram, outros aprimoram seus argumentos e enriquecem o texto final. ]

Seja como for, a pesquisa de aplicação avança no que se sabe sobre o fundamento em questão (para endossar, aprimorar ou descartar), a menos que a presença daquele conhecimento no trabalho seja cartorial: para todos os efeitos, há uma referência que explica ou justifica a escolha do pesquisador. Resta ainda explicar ou justificar a escolha da referência (ou a escolha das referências da referência ad infinitum), e este ponto é extremamente rico para o debate científico, embora assustadoramente raro na produção brasileira da área de Design.

Pesquisadores da área de Design têm limitações suficientes de recursos (tempo, dinheiro, estudantes) para conduzir pesquisas próprias, quanto mais para criticar pesquisas de outros pesquisadores.

As limitações são realidade. Dá muito trabalho organizar grupos de pesquisa, preparar e orientar vários estudantes ao mesmo tempo, viabilizar financeiramente as pesquisas, a publicação e apresentação dos resultados – inscrições, passagens, diárias e todo o resto.

Contudo, a não ser que haja incrível (e improvável) consenso em todas as linhas de pesquisa do Design brasileiro, é de se esperar que um dado problema de investigação seja de interesse de diversos pesquisadores e que as abordagens não sejam idênticas.

Há, ou deveria haver, discordâncias sobre referenciais teóricos, procedimentos, instrumentos e assim por diante. A interpretação dissonante do mesmo referencial é perfeitamente possível, diga-se de passagem. Tal discordância, saudável e desejável, seria suficiente para promover e sustentar o debate público que não observo na área. Considerando que o consenso total é improvável, pode-se indicar outro argumento: evita-se o conflito.

Brasileiros (designers inclusos) não gostam de debate. Grupos de pesquisa são confrarias de amigos que citam a si mesmos, reverenciam as mesmas bases e evitam o confronto público.

Eu não investiria no argumento da má fé das pessoas. O processo seria muito mais simples se houvesse mecanismos institucionalizados para críticas e debates públicos. Não obstante, o principal periódico de Design do país leva de 6 a 12 meses para revisar e publicar os artigos recebidos. É um trabalho enorme, muitas vezes voluntário, realizado por poucas pessoas. Eventuais réplicas a artigos publicados levariam de 6 a 12 meses para aparecer, seguidas de tréplicas em mais 6 a 12 meses… Correspondência da era das grandes navegações.

Já ouvi argumentos de que há fatores culturais que inibem o debate científico brasileiro. Minha experiência na Psicologia é diferente e acompanhei boas discussões na Economia, Educação e Ciências Sociais. Mesmo nas Artes, o debate me parece mais intenso, o que pode indicar que minha observação sobre o Design infelizmente corresponde à realidade.

O desejo de estar errado

O que fazer, enquanto pesquisador que sente que não há debates nas publicações acadêmicas de Design no Brasil? Como desenvolver a atitude crítica dos jovens pesquisadores, despertando o interesse pela produção científica orientada não apenas pelo trabalho autoral isolado, mas pela participação ativa no debate acadêmico mais amplo em sua área?

Desejo estar errado quanto ao meu questionamento e comecei a pesquisar, de forma sistemática, os debates que acredito não existir. Estou aceitando sugestões (nos comentários ou por e-mail) de sequências de trabalhos que discutam publicamente o mesmo problema de pesquisa. Ficarei profundamente satisfeito com propostas e réplicas e soltarei fogos em caso de tréplicas.

Definitivamente discordo dos argumentos da ciência jovem, da ciência aplicada e desimplicada, do foco no próprio trabalho e mesmo da ação entre amigos. Se o debate não existe, qual é o sentido da pesquisa?

Divulgarei os resultados por aqui até o final do pós-doutorado (mar/2019).

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