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Em 2015, escrevi um post no Medium defendendo mais diálogo e tolerância nos meus círculos de amizade, especialmente em função de eventos desastrosos no Facebook. Aquele post sintetizou muitos “textões” que publiquei por lá, até finalmente abandonar a plataforma no ano seguinte. O que mudou no Fla x Flu de lá para cá? Qual foi o crescimento qualitativo do debate nos últimos três anos?

Kevin Spacey, nos bons tempos.

Infelizmente, nenhum. Lembrem que ainda estávamos na era pré-impeachment (pré-golpe); Eduardo Cunha dava as cartas do jogo político brasileiro e a Lava Jato estava na 15ª fase; o MBL era uma força em ascensão, observada a distância pela esquerda sem muita noção do que estava por vir; a extrema direita, representada pela imagem de Jair Bolsonaro ou pela bancada associada, era menosprezada pela esquerda e tratada como caricatura de futuros improváveis para o país. Lula estava preocupado, mas ainda era mero depoente nas investigações. Eu não assisti House of Cards, mas diziam que eles estavam nos assistindo.

De lá até a prisão de Lula, tivemos de tudo. Não pretendo fazer retrospectivas porque não daria conta de todos os fatos, muito menos de argumentar quais são realmente fatos e quais são conjunturas, especulações ou fake news. Sinceramente, acredito que ninguém consegue visualizar o todo e, apesar de tal incapacidade, pessoas dos vários espectros políticos e visões de mundo reivindicam a autoridade de enunciar a certeza e estabelecer a verdade, tendo como consequência a exigência de que a justiça seja feita. Os artigos definidos que qualificam certeza, verdade e justiça na frase anterior são os temas deste post.

A foto emblemática do “movimento” contra a corrupção.

Como de costume, as ressalvas: em primeiro lugar, sou declaradamente liberal e de esquerda, tudo misturado em um tipo peculiar de anarquista (explicação rasa em português aqui). No meu mundo ideal, as transformações sociais são exclusivamente baseadas na ação direta e autogestão, sem a interferência de políticos, burocratas ou qualquer instância concentradora de poder. Meu lado pragmatista (também tenho profunda admiração por eles), entretanto, compreende a impossibilidade de migrarmos do atual presidencialismo de coalizão para formas mais radicais de liberdade e autonomia, de maneira que a pauta real é viabilizar ações concretas tendo o ideal como norte eternamente inalcançável – este é o sentido mais poderoso de utopia; é roadmap, não milestone.

Alguém certamente questionará em que momento “virei” anarquista. Ao longo deste [longo] post, argumentarei que tais posicionamentos são processos que não acontecem do dia para a noite e resultam de diversas experiências que se completam: não acredito no modelo de ensino superior vigente no país, então passo a maior parte do tempo em projetos de extensão com os estudantes fora de sala de aula; pesquiso e defendo sistematicamente o autodidatismo em todas as áreas (minha tese de doutorado discute o aprendizado de princípios da Computação por designers); meu pós-doutorado investiga sistemas automatizados de ensino; publiquei um livro chamado “Design sem designer“, sendo designer…

Em segundo lugar, eu poderia escrever o restante deste post fazendo referências diretas a estudos e teorias das ciências comportamentais para tentar fundamentar o tipo de leitura que faço do cenário. Preferi manter a redação direta, na esperança de que o leitor não iniciado possa extrair o que importa, como fazem bem os textos de divulgação científica. Os iniciados nos temas poderão reconhecer claramente a que tipos de funções cognitivas estou fazendo referência e, quem sabe, me ajudar discordando e oferecendo análises distintas. A análise é subjetiva, o que não quer dizer que não possa ser objetivamente formulada – pegando carona nos argumentos de John Searle.

Bases da discriminação

Não é fácil determinar as origens do racha social em que vivemos. Tenho amigos defendendo abertamente a ditadura militar nas redes. Tenho ex-colegas de trabalho reproduzindo fake news sobre o caso Marielle Franco. Tenho familiares destilando ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT), dizendo que a hostilidade é justificável. E tenho outros contatos, que são minoria, defendendo o diálogo e condenando os excessos. Mesmo entre os moderados, há declarações aceitas como “verdade”:

Um professor capixaba de Ciência Política e o ofício do MPF defendo pressa na execução da prisão de Lula: a onipotência de quem tem o controle do Estado e a capacidade de manipulação das pessoas.

Como tal compreensão do poder e modo de ação de Lula, enquanto principal liderança popular da história brasileira, se desenvolveu? O socialismo significa a centralização do poder e a subordinação dos cidadãos a certo projeto de país? Vivemos assim entre 2003 e 2010 (ou 2016)?

Em um único aspecto eu concordo com o professor: a prisão de Lula é a punição do líder de determinado projeto. A discórdia está nas demais “verdades” que os procuradores e o professor acreditam.

Utopias, certezas, verdades e justiças

Como vão as utopias, de meados de 2015 a 07 de abril deste 2018? Perdidas, confusas, engolidas por coalizões que, mais cedo ou mais tarde, emitirão as respectivas faturas. O momento da cobrança será o auge dos choques entre certezas, verdades e justiças.

A explosão dos sites de notícias de nicho não é mero efeito colateral do racha social, mas parte indissociável de sua operação. As bolhas que nos aprisionam nas redes sociais (estas sim, efeitos colaterais do resto) necessitam de mecanismos que ajudem a reduzir os custos (emocionais, afetivos, financeiros…) de se justificar tomadas de posição. As fake news não são as únicas protagonistas da construção dos discursos segregacionistas. Por mais que eu não esteja devidamente informado sobre determinado acontecimento da política nacional, preciso encontrar suporte para me expressar publicamente sem parecer despreparado.

O Globo – 1º de abril de 1964

O custo da retratação (as “escusas”) é muito alto e a velocidade do fluxo das discussões não deixa espaço para correções. Melhor me posicionar logo e afrontar o outro lado, mesmo que sem muitas bases. O que vale é a multidão que me acompanha, que concorda comigo e com todas essas fontes cuja imparcialidade está acima de qualquer suspeita. “A maior parte do país quer X” é a forma daquele que está certo de que está certo dizer que todos os demais, que são poucos, estão errados. No passado, os grandes monopólios da mídia brasileira desempenhavam o papel do alívio para aquele que desejava se justificar por suas próprias verdades.

Hoje, há tantas verdades quanto há fontes para elas, literalmente concorrendo pelo posto de última verdade (dos últimos cinco minutos, mas enfim). Estar certo tem menos relação com fatos, no sentido jornalístico, documental ou científico do milênio passado, do que com a aderência às informações seletivas que conseguem ultrapassar a membrana da bolha na qual você e os que concordam contigo estão inseridos.

Post do Dep. Alberto Fraga (DEM/DF) disseminando notícias falsas sobre a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL/RJ).

Dizer que todos têm direito às suas próprias verdades, mas não aos seus próprios fatos, não faz muito sentido considerando a “indústria de fatos” em operação ou mesmo a forma como damos sentido ao mundo. Em determinadas perspectivas que tentam explicar nossa consciência sobre a realidade, aquilo que as pessoas assumem como “verdade”  implica conhecimento mútuo, interdependente e coerente sobre fatos, teorias e valores.

A fonte da notícia falsa sobre Marielle Franco disseminada por Alberto Fraga. Apesar das “escusas” sobre desconhecer a fonte, o deputado enfrentará a comissão de ética da Câmara.

Não há outra maneira de conceber o mundo a não ser aquela fundada em minhas próprias verdades (o que sei, como explico o mundo a partir do que sei e como valoro os eventos deste mundo que conheço), daí a importância do respeito à diversidade ou diferença em sistemas democráticos. Em contextos autoritários, por inversão, é a supressão da diferença que cria condições para discursos hegemônicos que tentam se sobrepor aos fatos, teorias, valores que são a verdade de cada um.

O que vivemos no país desde 2013 me parece justamente a batalha dos discursos concorrentes e com intenções totalitárias, em todos os matizes do espectro político. Em 2015, quando escrevi o primeiro post, setores da sociedade brasileira declararam abertamente suas verdades (fatos, teorias e valores) sobre os demais. A disputa entre nós e eles sempre esteve aí, com máximas aparentemente inofensivas como “o problema são os outros” e “eu não, meu grupo não”. O que parece ter mudado é que o brasileiro cordial, aquele que serviu de justificativa para aliviar séculos de contradições, cedeu espaço a outras justificativas mais fortes, capazes de redesenhar a agenda do país sem remorso. A falta de remorso é produto de planejamento explícito de pessoas que compreenderam cuidadosamente a dinâmica auto-reforçadora dos grupos nas redes e que usaram isso para modelar gradualmente a segregação.

Nesse sentido, a indignação seletiva serve a propósitos diversos. Dependendo de nossas crenças, denunciamos a seletividade factual do outro. A presunção de inocência ou protelamento das investigações é válida para os nossos e inaceitável para os outros. Isso vale para todos os lados na disputa política. O problema é a transposição daquilo em que acreditamos para o ordenamento jurídico do país. O problema é perceber que a indignação seletiva pauta as ações de agentes públicos, com consequências perigosas no exercício parcial de funções nos três poderes.

Diferentemente das crenças do professor de Ciência Política e os procuradores do MPF, não sustento o argumento top-down da manipulação e onipotência de líderes. A participação política nos movimentos sociais mudou muito desde os escritos que os críticos utilizam para acusar a esquerda de conduzir as massas. No Brasil, a crítica ao “dirigismo” da esquerda foi feita publicamente até por Paulo Freire. A análise precisa incluir a autonomia dos agentes no processo, bottom-up, mesmo quando são responsáveis pelo fortalecimento das próprias bolhas.

Capturamos a nós mesmos

A captura de dados pessoais do Facebook e uso deliberado por empresas como Cambridge Analytica são a instrumentalização de hábitos adquiridos previamente e que estão suficientemente fortes. Não é por acaso que eles analisam aquilo que fazemos com quem nos cerca para elaborar perfis de personalidade e oferecer conteúdo especificamente projetado para nos manter na direção em que já estávamos. Trocando em miúdos, ninguém se tornará racista apenas recebendo posts patrocinados. Os cutuques para lá ou para cá acontecem nas redes, embora os hábitos também se manifestem offline.

Encontramos nos feeds aquilo que conversamos nos bares, nos ambientes de trabalho e nas filas do que quer que seja, porque nós mesmos levamos para lá. As news, fake ou não (lembrando que ser “verdadeiro” é pessoal), chegam até nós por conta dessas preferências registradas difusamente em milhões de interações anteriores (ou nas interações de quem nos cerca e está na lista de amigos), e na sequência amplificam incômodos, catalisam a emissão de opiniões (usando aquele “fato” como fundamento) e nos levam a agir no feed, fortalecendo o modelo de “aderência” que manterá esse circuito funcionando.

A vida e o feed: a divisão da minha sociedade (Miami?) não existe.

A aderência, que estou definindo como esse alinhamento entre a minha verdade e o fluxo da narrativa com o qual interajo para me posicionar, é construída pelo conflito. Não existe trivialidade no processo de seleção daqueles fatos que reforçam minhas crenças e valores. Eventualmente, meus valores são questionados por fontes que acreditamos e pessoas que respeitamos. A Globo é golpista e comunista, ao mesmo tempo e para grupos distintos. Nessa peleja por coerência, a necessidade de vencer (ou aniquilar) os argumentos contrários empregando dados, deboche ou ofensas pode nem sempre encontrar alívio em interlocutores historicamente alinhados à nossa verdade. Seja como for, naquele momento, o inimigo do meu inimigo pode ser meu aliado. Não há nada de novo nisso, se lembrarmos do presidencialismo de coalizão que nos afoga… E que deveria ter nos ensinado algo sobre alianças fisiológicas.

Uma das principais críticas que se pode fazer ao PT é a falta de autocrítica, mesmo após tudo que aconteceu no país desde o mensalão. No melhor estilo “eu não, meu grupo não”, o PT surgiu como alternativa à política das elites, à cooptação do Estado por interesses corporativos em detrimento de interesses coletivos – o modus operandi historicamente atribuído aos partidos das classes dominantes. Alianças com o (P)MDB e PL (atual PR) em busca de maioria se justificaram (o tal alívio) em função da agenda de transformação social do país. A carta de 2002, endereçada ao povo, mas com outro destinatário, tinha justificativas semelhantes.

Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais.

Novamente, não existe incoerência em beber café no acampamento dos sem terra pela manhã e acalmar banqueiros na hora do almoço. Essas ações concorrem entre si para constituir partes complementares da verdade, conformá-la e ajustá-la aos propósitos seus atores naquele cenário. A coerência alcançada nem sempre faz sentido para os críticos que, de fora, exigem que a autocrítica seja feita tomando como referência comportamentos públicos anteriores – discursos, declarações, manifestos etc.

Lula, oposição e situação – por Diogo Salles

No caso do PT, coalizões com setores conservadores da sociedade brasileira e a “estratégia” do Lulinha Paz e Amor tiveram consequências complexas junto à sociedade como um todo. Apoiadores históricos e militantes do próprio PT, insatisfeitos com movimentos  incoerentes em relação às pautas originais do partido (lembrem-se das verdades subjetivas), foram rotulados como radicais por correntes mais moderadas do novo cenário governista.

As dissidências e expulsões que geraram o PSOL, dentre outras consequências, também exemplificam processos psicossociais importantes. O pertencimento a grupos é um dos processos fundamentais para a constituição da nossa identidade. Integrar comunidades, partidos, grupos religiosos, torcidas de futebol e afins nos ajuda a definir quem somos e quem não somos na comparação com outros grupos. Há casos em que integrar certos grupos resulta em conflito, sofrimento ou insatisfação, então o indivíduo se engaja em ações que podem envolver 1) a transformação do grupo, buscando realinhá-lo aos valores e crenças não conflitantes; 2) a transformação de sua percepção do grupo, elaborando justificativas que reduzam o conflito, conformando-o à nova realidade; ou 3) o abandono do grupo. O que todos nós buscamos são relações que contribuam positivamente para a forma como nos percebemos, mesmo que isso signifique mudar de ideia, deixar o grupo ou atuar na mudança dele.

O que está em jogo é a noção de que grupos não são estáticos, nem tampouco são estáticas as relações que seus integrantes estabelecem entre si e com o fato de pertencerem à eles. Existem movimentos permanentes de tensão, o que deveria nos levar a questionar homogeneidades em qualquer ponto do espectro político. Esquerda, direita e centro não são uniformes, como também não são iguais todos os conservadores ou todos os liberais, nem petistas nem tucanos. E, para ajudar, ninguém integra um grupo só. Posso ser (como sou) liberal e de esquerda, mas também servidor público e negro. Tudo isso junto e misturado para construir justificativas subjetivamente coerentes para cada ação objetiva que tenho.

Para aqueles que decidem não deixar ou revolucionar os grupos que integram, o trabalho não será mais simples. Por mais que o Homo economicus persista nas explicações de muitos neoliberais, os processos de pertencimento são infinitamente mais complexos do que as equações coxinha = reacionário ou mortadela = comunista: ficamos desconfortáveis ao sermos a única opinião dissonante na presença de pessoas que consideramos e respeitamos; decisões coletivas dos grupos que integramos exercem pressões incríveis sobre nossas ações; incentivos ou críticas de fontes relevantes podem influenciar nossas ações e decisões futuras.

Grupos elaboram e compartilham conhecimento sobre a realidade. Esse conhecimento, muitas vezes desprezado por concepções reificadas de ciência, é uma forma de saber como qualquer outra, orientando e justificando práticas dos integrantes daqueles grupos. Recuperando a ideia de que grupos distintos lidam com a realidade com base em suas próprias verdades, o Fla x Flu é válido pelo embate das ideias (que precisa ser aprimorada ou descartada pelo grupo no conflito) e não pelo desejo de impor a verdade final, única e definitiva.

Em paralelo à dinâmica grupal, temos nossas próprias limitações para lidar com as informações disponíveis para agirmos. Os vieses são muitos. As avaliações que fazemos sobre os fatos disponíveis são moduladas por nossas crenças e valores, além de serem afetadas pela forma por meio da qual os fatos são apresentados e as opções de ação são fornecidas.

Preconceito como base da discriminação: fatos, teorias, valores…

Eventos que experimentamos mais vezes tendem a ser assumidos como mais prováveis, e costumamos tomar decisões com base em características estereotipadas de pessoas, grupos e situações, ignorando detalhes particulares que podem variar em diferentes contextos. O senso comum é parte indissociável dos processos decisórios e o preconceito é um mecanismo cognitivo espetacular, com a exceção dos casos nos quais se torna a base da discriminação.

Bolsa Família: apesar dos resultados, rotulada como estratégia eleitoreira ou incentivo à vadiagem.

Se as notícias diárias (fake ou não) falam de um único partido como fonte da corrupção, podemos passar a correlacionar automaticamente filiação e falha de caráter. A análise dos números sobre a corrupção no país, amplamente divulgados, não consegue superar o efeito. Estratégias midiáticas semelhantes associam menores de idade e impunidade na execução de crimes graves, pautando a redução da maioridade penal. Nada adianta mencionar variáveis complexas como a cooptação por adultos, a falta de oportunidades para os jovens em situação de vulnerabilidade social, nem a falência do sistema carcerário quanto às possibilidades de ressocialização de seus internos. A exibição diária e inflamada de três notícias que reforcem o discurso do menor criminoso pode ser suficiente para perpetuar generalizações.

O “malvado favorito” do PMDB.

Naturalmente, os vieses não são exclusividade da direita. Há exemplos de sobra das dificuldades de discussão pública dos casos do Mensalão, da Lava Jato, do assassinato de Celso Daniel e, especialmente, da composição da chapa nas eleições de 2014 que colocou Michel Temer, o capitão do golpe, como vice. A relação dos governos petistas com o PMDB nunca foi harmônica e a presença do partido na base figurou como “mal necessário”.  Eduardo Cunha desempenhou esse papel ambíguo junto à opinião pública que, ao percebê-lo na presidência da Câmara dos Deputados, ajustou o discurso para integrá-lo aos movimentos anti-corrupção iniciados em 2013. A avaliação desses movimentos quanto à utilidade “inofensiva” e temporária de Cunha, para variar, conformava a realidade.

A fatura

Cunha, o malvado favorito, foi eleito pelo centrão, que por sua vez foi eleito por cidadãos de carne, osso e verdades próprias. Se há uma bancada fundamentalista, conservadora e com agendas retrógradas, há eleitores identificados com essa agenda. Por tudo que descrevi até o momento, não se pode falar em falta de informação, de cooptação, doutrinação religiosa ou coisas do gênero. As pessoas vivem suas verdades de decidem votos com base em suas crenças, valores e concepções de mundo.

O risco que setores (neo)liberais ou conservadores menos fundamentalistas da sociedade brasileira correram ao se alinharem parcialmente à agenda do centrão diz respeito ao fortalecimento inevitável do resto, que de resto não tem nada. A retirada do PT da presidência e a execução de um plano de governo com reformas à direita do ponto de vista econômico arrastou pautas também à direita em relação aos costumes. Sempre entendi a elite brasileira como progressista nos costumes, conservadora na economia e transformação social – se as novelas da Globo no século passado pautavam as narrativas, nada menos do que uma cultura progressista (estereotipada e sudestizando o Brasil, mas ao fim e ao cabo progressista) estava em vigor.

A realidade em 2018 é outra. Estamos rediscutindo o estatuto do desarmamento nos shoppings, com a explosão dos stands de tiro “esportivos”. Pautamos o noticiário por programas sensacionalistas cujas narrativas de fundo são reacionárias (bandido bom é bandido morto, defesa do cidadão de bem) e observamos o crescimento (não tão surpreendente assim) de Jair Bolsonaro para o segundo lugar das pesquisas de intenção de voto: evangélico, homofóbico, militar linha-dura e midiático. Sem plataformas claras, Bolsonaro é tão imprevisível quanto Lula entre 1989 e 1998, e há setores do mercado financeiroda imprensa que militou no impeachment sinalizando adesão à campanha do deputado sem que novas “cartas ao povo” precisem ser escritas. O deputado é o porta-voz e não o arquiteto do conservadorismo.

Migramos gradualmente de propostas como a escola sem partido para desejos de uma república fundamentalista cristã; do fora Dilma ao fora todos; do judiciário implacável e moralista de Joaquim Barbosa para o judiciário messiânico de Dallagnol e de Bretas. Sempre teremos alguém mais corrupto que desloca o cidadão que fura filas (ou recebe acima do teto constitucional) para a lista dos “males menores”. O problema é o PT, oras.

A fatura que estamos recebendo condena indiscriminadamente (e estrategicamente) a classe política no executivo e legislativo, transformando os poderes remanescentes e suas encarnações nos últimos moicanos da salvação nacional: a solução virá pelos juízes, ministros, procuradores e forças armadas, não pelo voto. Nenhum deles foi eleito democraticamente; nenhum deles apresentou propostas ou teve que discutir questões programáticas com as bases que pretende representar. Dizer que “não precisam ser eleitos porque seguem a lei e a constituição” é abandonar o conjunto dos princípios da psicologia social que abordei superficialmente neste post. Cada inciso lido na carta magna do país tem a lente das crenças daquele que lê como filtro. Os limites entre meus valores e os valores do país nunca foram tão tênues. A separação entre os poderes é fundamental para manter os contrapesos, então precisamos nos perguntar a quem interessa a emergência de um poder superpoderoso em detrimento dos demais.

Certos políticos tentam surfar a falta de credibilidade da categoria, se posicionando como outsiders, mas não sem riscos. O não-político enuncia e discrimina o outro grupo, atribuindo todas as mazelas do país um único setor da sociedade. Sabemos que a corrupção dos políticos envolve empresas e empresários corruptores, seus funcionários e emissários. Sabemos das benesses fiscais, do rentismo que abocanha o PIB, dos repatriamentos “camaradas” de recursos ilegalmente enviados ao exterior, das dívidas trabalhistas e previdenciárias intermináveis, dos heliococas, das cuecas, malas e apartamentos cheios de dinheiro de propina. Nada disso tem aderência ao discurso da corrupção. Bandido bom é bandido morto, embora a definição de crime seja elástica conforme o grupo a ser enquadrado.

Estrelas da mídia não suportaram uma semana de escrutínio da vida pessoal e desistiram rapidamente de seus sonhos eleitorais. Mega empresários e banqueiros continuam no páreo, vestindo interesses corporativos com a fantasia dos anseios da maioria da população.

O presidente da Fiesp Paulo Skaf (PMDB/SP) e seu pet em Brasília. Nós pagaremos o pato.

Inicialmente associados aos movimentos anti-corrupção de 2013, os seguidores do pato da Fiesp perceberam tardiamente o risco das estratégias difamatórias e fraudulentas da “nova geração” da “não-política”. O esvaziamento da política interessa àqueles que querem preenchê-la com outra política rotulada de arrumação da casa, crescimento econômico ou estado mínimo. A onipotência e desejo de controle atribuídos a Lula incomodam por ser ele, não pelo controle e onipotência em si mesmos.

Uma psicologia social do golpe

Nas minhas verdades e concepções de mundo não há espaço para mártires, líderes populistas ou soluções totalitárias, estejam elas em qualquer ponto do espectro político. Tentativas de análises psicossociais dos eventos como esta não buscam relativizações. A legitimação de ofensas, agressões ou abusos por verdades subjetivas representa o inverso dos meus argumentos. Não à discriminação, ao preconceito, ao ódio. Espero que os leitores desse texto possam repensar os conflitos que o país passa a partir dos processos que descrevi superficialmente, e que busquem alternativas necessárias ao confronto direto e à comunicação violenta.

Ser liberal significa defender a liberdade de expressão a todo custo, mas também os desdobramentos responsáveis dessa liberdade. Que todos tenham preservado o direito de defenderem o que acreditam e o dever de assumirem as consequências de seus atos, democraticamente, sem distinções.

Por mais que o cenário que descrevi seja decepcionante, a única forma pragmática de intensificar as liberdades e reduzir a desigualdade no país é pela via do diálogo e fortalecimento da democracia. O que está sendo proposto e endossado, mesmo que indiretamente, é o oposto. Tenho interesse, disponibilidade e força de vontade para criar canais de debate e discussão com qualquer pessoa interessada nos temas que abordei e em alternativas para o futuro estranho que nós mesmos estamos desenhando para o país.

Muitos desqualificam as candidaturas de Ciro Gomes, Manuela D’Avila, Guilherme Boulos e Marina Silva: destemperado, inexperiente (mais honesto seria dizer que não a conhecem), analfabeto e truculento (outro, feito Lula dos anos 1980) e fraca (“frágil”, não “aguentaria” o cargo), respectivamente. O alinhamento programático de certos candidatos mais à esquerda do espectro, a despeito de suas diferenças, é um alívio. Manuela e Boulos têm caminhado mais próximos a Lula, enquanto Ciro mantém distância. Marina, em quem votei em 2010, é uma incógnita em função de sua atuação política confusa nos últimos anos.

Independentemente da escolha daqueles que se posicionam à esquerda, vejo oportunidades únicas de resgatar a agenda que mobilizou a maior parte da sociedade na primeira eleição de Lula, com o agravante de enfrentarmos o retrocesso nos costumes e o endurecimento ou abandono das políticas sociais conquistadas a duras penas. Estas são as verdades em que acredito, publicamente.

“Os fantasmas de todas as revoluções estranguladas ou traídas, ao longo da torturada história latino-americana, ressurgem nas novas experiências, assim como os tempos presentes tinham sido pressentidos e engendrados pelas contradições do passado. A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será.”

— Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina)

PS: Quer ler os estudos (implicitamente mencionados) nas fontes originais? Mande um alô por e-mail ou organize um bate-papo. Estarei lá.

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