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Abandonei o uso “social” do Facebook em 2015, primeiro suspendendo a conta. Um ano depois, reativei e mantive o “perfil zumbi”: só divulgo coisas, não respondo, não curto nem compartilho nada, nem adiciono ninguém novo (removi uns 300 “amigos”). O que eu fiz enquanto isso? Twitter!

Uso o Twitter há 10+ anos (desde abril/2008). Ainda era professor na Estácio de Sá e tentava explicar aos estudantes da geração Orkut como a “nova” rede funcionava e o que diabos faríamos apenas com 140 caracteres. Uma década depois, o Twitter mudou muito e os motivos que me fizeram voltar para lá (abandono forte entre 2011-2014) não têm relação com a saída do Facebook.

Na verdade, nunca abandonei o Twitter. Meu Hootsuite era bem organizado (multicontas), com listas temáticas, abas para pesquisadores e profissionais que gosto de acompanhar e assim por diante. No começo, o esforço de encontrar esses perfis era grande. Muitos não interagiam entre si e, na maior parte dos casos, falavam da vida ou divulgavam seus trabalhos. Havia pouca discussão temática, certamente pelos limites do espaço.

Outra questão que sempre me interessou no Twitter são os retweets (RTs), principal caminho para descobrir gente nova e interessante. No Facebook, é bem mais comum compartilhar posts de dentro da sua bolha, de celebridades, ou de algo que viralizou. No Twitter existe outro hábito curioso dos RTs de desconhecidos que não se segue e não se conhece. De uns tempos para cá, temos o recurso de visualizar as curtidas, RTs e comentários daqueles que você segue. Parece o Facebook, mas na prática as camadas (confusas, é verdade) de reuso, sobrescrita e recontextualização criam possibilidades infinitas de diálogo (e tretas). Seguir alguém não implica “amizade” nem “tentativa de aproximação” e o inverso também não significa nada além de “perdi o interesse”.

A sugestão de perfis para seguir também me parece menos invasiva. A sensação que eu tenho (posso estar enganado) é que a localização comum pesa, seguir pessoas em comum pesa, mas percebo sugestões que têm relação com os tipos de coisa (links, RTs) que publico.

Tenho duas questões favoritas no Twitter de hoje. Primeiro, continuo conhecendo histórias fantásticas de gente desconhecida de lugares muito diferentes do mundo. As sequências, ideia inteligente para encadear tweets curtos em histórias mais longas (ainda não me interesso por moments), permitem que se acompanhe o desenrolar de eventos. Eis um caso recente muito curioso (esperança na humanidade, #ftw):

A segunda e melhor parte são os usos organizados do Twitter. Cientistas defendem que a rede pode ser utilizada para divulgação científica (#openscience), para ajudar no trabalho (árduo) de levar os resultados das pesquisas para o público em geral. Ao mesmo tempo, pode-se obter contribuições, apoio e opiniões sobre estudos em fase inicial, pré-prints, divulgação e discussão de dados brutos. A quantidade de livros, artigos e eventos de nicho que descobri, por conta dos usos temáticos do Twitter, é simplesmente fantástica.

Tudo isso é possível no Facebook? Sim. Há trolls (e robôs) no Twitter? Sim. Qual é a diferença? Para mim, 1) há a distância saudável entre as pessoas; 2) a bolha tem fronteiras mais permeáveis; 3) interações entre estranhos e subcelebridades são mais efêmeras; 4) não há “textão”, já que sequências podem e são interrompidas com comentários específicos em trechos, ramificando fortemente o debate em várias direções; 5) as bolhas são mais definidas por assuntos que por redes de amigos e amigos de amigos.

Por fim, há movimentos do Twitter querendo ser Facebook. Em função do abandono, o Facebook está me “punindo”. Não interagir, não curtir, compartilhar ou fazer coisas que Facebook gostaria que eu fizesse resulta em baixa capacidade de espalhar coisas nas terras de Zuck. Meus alunos relatam que não vêem posts que faço até que mais gente comece a compartilhar. Fiz testes com computadores lado a lado e é assustador. Não sei exatamente como isso funciona, embora os algoritmos do vício realmente deveriam me colocar no final da fila para montar os feeds dos meus contatos.

O Twitter avisou em 2016 que o feed não segue mais, por default, a ordem cronológica dos tweets e sim os “mais relevantes” para os usuários. É um filtro caixa-preta como o do Facebook, só que com a opção de desligar. No fim das contas, o Facebook reforça a bolha dos grupinhos (de ódio e de amor) e amplifica aquelas relações. O Twitter ainda é mais diverso, apesar dos robôs, trolls e haters. Não recebo minha dose diária de ódio no Twitter, só se eu quiser. Propagandas segmentadas são sensivelmente menos invasivas no Twitter, provavelmente por saber bem menos sobre mim que o Facebook sabe, e sem minerar minha vida no WhatsApp e Instagram em paralelo.

Em tempo: adicionei à minha lista de compras o último livro de Jaron Lanier: Dez argumentos para apagar suas contas nas redes sociais… Como eu tenho uns 30, gostaria de saber se deveria ter 40.

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