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A Reforma de Córdova de 1918 e a extensão do presente

A concepção produtivista e assistencialista da extensão universitária vigente no Brasil estabelece objetivos e critérios de sucesso que contradizem sua função: a extensão é a universidade onde ensino e pesquisa não chegam. Este é o legado da Reforma Universitária de Córdova de 1918.

Protesto dos estudantes cordoveses em 1918.

Estamos “comemorando” 100 anos da Reforma Universitária de Córdova. O assunto não ressurgiu no meu radar por conta da data. No ano passado, publiquei o segundo livro do Incendiários com o tema Universidade Pública. Uma das experiências que discuto é a Reforma de Córdova, além da Universidade do Trabalhador (anos 1980, SP) e o projeto original da UnB elaborado por Darcy Ribeiro. Em síntese, a Reforma aconteceu…

para afirmar o papel social da universidade na periferia do mundo. Ainda que ocupada pelas elites latino-americanas, a universidade pública não pode ser instrumento da perpetuação do status quo.

para lembrar (ou não esquecer) que a produção de conhecimento deve ser conectada ao que acontece fora dos laboratórios e dos muros da instituição. Titulações, currículos e fatores de impacto são meras formalidades autorreferentes e sem importância para o enfrentamento de nossas desigualdades estruturais.

para abolir a hierarquia entre saberes científicos e do senso comum. Um dos pilares da Reforma foi a ruptura das cátedras, nas quais professores tinham domínio vitalício sobre o ensino de certas disciplinas. Ainda mantemos concepções reificadas de ciência, impedindo que pessoas não tituladas possam lecionar, participar de bancas ou desenvolver atividades de pesquisa nas universidades. São convidadas a falar, são investigadas e são homenageadas, porém sempre pela afirmação da diferença entre o acadêmico e o leigo.

para abrir o espaço universitário à população, mas não com objetivos “civilizatórios”. Aqueles que não são universitários frequentam as instituições não apenas para desfrutarem de “cultura” ou para receberem medidas compensatórias das omissões do Estado (leia-se assistencialismo). O espaço da universidade é o espaço da comunidade discutir seus dilemas, compreender seu passado e planejar seu futuro, seja pela educação dos jovens, seja pela formação continuada dos adultos. É mais do que formar passivamente “mão de obra” para o mercado – é discutir criticamente o que é trabalho e suas relações no mercado, inclusive criando alternativas.

Nesse contexto, a extensão universitária é um sopro de esperança, ainda que seja vítima do mesmo produtivismo que assola a pesquisa e esteriliza o ensino. Cada vez mais, há gestores interessados no extensionismo por seus números e não em sua finalidade:  superar a dicotomia dentro-fora, científico-leigo. Em outras palavras, a quantidade de “pessoas atendidas” e “certificados emitidos” é mais importante do que a participação ativa e efetiva da instituição na transformação social do país.

Viva a Reforma Universitária de Córdova.

PS: O CLACSO preparou um especial com textos sobre a reforma.

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