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Contraponto sobre “O poder dos ultrajovens”

A capa da Revista Época é o típico click-bait, ou seu equivalente para publicações impressas. Quais “pesquisas recentes” confirmam o argumento dos ultrajovens? Todas são da Nielsen Consumer Neuroscience e Box1824? Se sim, a matéria é jabá. Se não forem, é incompreensão mesmo.

Seja como for, a intenção parece ser alertar as outras gerações sobre o “poder destrutivo” desses ultrajovens:

Eles resolvem a vida (para o bem e para o mal) pelo celular, sorvem coisas de cor verde (comer virou questão de identidade), têm um pendor para medicamentos identificados com uma tarja preta, passam a noite em claro, não se sabe se estão trabalhando ou relaxando, gostam de empunhar bandeiras universais, mas se preocupam mesmo é com sua persona nas redes sociais, pensam igual a quase todo mundo da mesma geração, comportam-se como adolescentes apesar de terem idade de adultos, tecnologia lhes é tão intrínseco como respirar, ser de esquerda é do jogo, ter o nariz em pé é condição sine qua non, gostam de Insta Stories porque ele dura pouco, arriscam tudo por terem pouco a perder, rechaçam qualquer coisa que contenha plástico, gostam de viajar para lugares onde podem mostrar novidades no Instagram. Eles são o que são ou são o que querem parecer ser?

Há outras formas de ler as mesmas características: odeiam a burocracia e os procedimentos (lentos, impessoais, frios) vigentes para acessarem informações, pessoas e interesses; repensaram os hábitos alimentares destrutivos das gerações anteriores; sofrem ansiedade e estão deprimidos pelos excessos causados por pais, professores, chefes e toda pessoa adulta que cobra deles algo que não lhes interessa; desenvolveram rotinas diárias e noturnas alternativas, em função de interesses próprios, não de atribuições impostas pela escola, trabalho ou família; preferem trabalhos que também recompensem emocionalmente, além de pagar as contas dos desejos; não se sentem intimidados por comprar a briga, por mais distante que esteja ou inútil (na nossa avaliação) que seja; são tratados como adolescentes por nós quando demandam independência e cobrados como adultos quando recebem responsabilidades; habituaram-se ao mundo tecnológico que não foi criado por eles e no qual foram inseridos desde sempre, muitas vezes sem a devida crítica e limites por parte dos pais…

[ Pausa para perguntar de onde saiu “ser de esquerda é do jogo”. Estamos tão rodeados de ultrajovens reacionários, neoliberais e bolsonaristas quanto esquerdistas, anarquistas e gente que ainda está pensando no assunto. ]

(Continuando…) Têm dificuldade com autoridade (o nariz tal em pé), mas é outro tipo de desobediência, que não quer ocupar o lugar de quem manda; vivem “o momento” porque viram a falência do modelo das coisas que são “para sempre” na vida dos pais e familiares mais velhos; entenderam que o plástico é um problema e estão fazendo pressão gradual para a mudança de hábitos na indústria (e estão conseguindo); gostam de dividir tudo pelas redes, não só comida e viagens, enquanto minha geração cresceu sob a máxima do guardar o que é bom para si, da “farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Eles são o que querem ser e isso é o que são. Nós somos o que quiseram para nós e tenho dúvidas se a estratégia deu certo.

Eu direi amém para ultrajovens preocupados com narrativas, contextos e motivações de tudo que fazem. Talvez seja a chance de recuperarmos a capacidade crítica sobre a vida que temos, sem apego a valores que nem sabemos de onde vieram e ainda assim adotamos e defendemos fervorosamente. Minha geração nasceu em um mundo com utopias moribundas, que desapareceram em definitivo pouco antes do nascimento dos ultrajovens. Quem sabe essa busca por narrativas crie futuros menos distópicos.

Estamos todos conectados, o tempo todo. Os grupos de WhatsApp são o desespero dos ultrajovens, não nosso. Eles começaram a presenciar seus parentes próximos e distantes (quem quer ter contato com parentes distantes?) emitirem opiniões sobre tudo e todos – fake news, vídeos aleatórios (nova versão dos slides de Power Point por e-mail dos anos 2000) e “bom dias” intermináveis. Sejamos honestos: estar conectado é condição de sobrevivência, já que toda e qualquer operação, atendimento, serviço (inclusive público) migrou para os meios digitais. A sociedade empurrou os ultrajovens, por conveniência ou negligência, para a vida online e agora reclama das habilidades impressionantes deles por lá.

A hipótese da “era da distração” é, de fato, preocupante. Uma das consequências é a total dispersão da atenção dos ultrajovens, que dificilmente focam numa só coisa, evento ou pessoa. A outra é que a distração escancara a absoluta inadequação das oportunidades que proporcionamos, no que diz respeito aos interesses e aspirações dos ultrajovens. Eles assistem dezenas de episódios de séries queridas, leem centenas de páginas dos livros favoritos, jogam por horas e são “desatentos”?

Sendo otimista, aulas chatas e professores desatualizados resultam em estudantes procurando outras formas mais rápidas e fáceis de vencer as avaliações. Sendo pessimista, vão bater papo nos messengers ou se atualizar sobre o que acontece de interessante “lá fora”. Trabalhos e empregos que não desafiam nem recompensam além do salário/bolsa são poupanças temporárias para as próximas viagens ou locais de passagem até encontrarem algo mais atraente. Ser dono do próprio “passe” nunca fez tanto sentido, especialmente para não vendê-lo a ninguém. E este “ninguém” pode ser uma relação amorosa, um financiamento habitacional ou um emprego, tanto faz.

As críticas de Época revelam, para mim, profunda incompreensão sobre nossas responsabilidades sobre a geração pós (+/-) 1997 que está aí. Projetamos neles o mundo que queremos que seja perpetuado, sem perguntar se eles querem dar continuidade aos nossos modelos. Lidando com ultrajovens diariamente, penso que em vez de criticar os riscos do “poder de destruição”, poderíamos repensar como também somos responsáveis por tanta ansiedade, sofrimento e desejo de se manter longe das estruturas e práticas sociais que marcaram as gerações anteriores.

Ainda bem que produzimos uma geração que vai abandonar tudo isso que está aí e transmitir a confusão por stories.

Obs1: Ignorei propositalmente as confusões conceituais para não atrapalhar o contraponto. O “ultrajovem” de 21 anos que aparece na matéria só pode ter nascido em 1997 e não habita o outro planeta que nasceu na década de 1980.

Obs2: Não tenho a menor afinidade com conceitos frouxos de sociologia de gabinete como modernidade líquida e pós-modernidade, que oferecem várias explicações cômodas e confortantes para o impasse. Estou muito distante deles na forma de pensar a questão. Botem na conta do capitalismo e pronto.

Obs3: Não tenho certeza se a matéria da revista foi um alerta ou elogio.

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Comentário

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  1. Cara, acabei de ler a nota (tão curta que nem parece matéria). Não tem nada mais irritante que jornalista tentando emplacar rótulos em uma geração. Nada demais em perceber as diferenças geracionais, mas vejo os mesmos hábitos em adultos mais velhos.

    Há décadas que existe uma infantilização crescente, isso muda os hábitos de consumo mas não significativamente. A indústria do plástico vai muito bem, apesar do discursos (ecofriendly, sustentáveis e outras modinhas).

    • Pois é, irritantemente raso. Muito mais cômodo reclamar dos futuros consumidores, que parecem não aceitarem passivamente os hábitos “segmentados” para eles.

      Vejo a infantilização como consequência de muitas coisas em cadeia (expectativas exageradas desde a gravidez, muita cobrança, mais tempo de estudo, mais tempo sob as asas dos pais etc) que dificilmente aparecem. Os sintomas estão aí, mas ninguém das gerações anteriores se vê como parte do problema.

      Sobre o plástico, concordo. Nem riscamos a superfície do domínio dessa indústria. Por outro lado, há mudanças bobas em paralelo (loja sem embalagens, gente banindo canudinho e sacola plástica versus comprar do pequeno, valorização do agroecológico, marca que se diz sem marca) que lá na frente balançam aquela segmentação desejada pelo deus mercado. Nossa geração dificilmente leva isso a sério, enquanto os mais jovens podem topar isso como uma causa importante.

      • considerando que se trata de um texto bem descontextualizado carregado de desesperança, triste, ainda me parece que o autor não visita os países do primeiro mundo faz muito tempo: “Lá no primeiro mundo, as pessoas só pensam em uma coisa: produzir. Produção gera riqueza, gera igualdade, reduz a violência e, em última instância, traz mais diversidade social do que de fato ensinar diversidade nas escolas.”
        os países com os melhores índices educacionais do mundo como a Finlândia por exemplo estão a muito tempo investindo em saúde e qualidade de vida. fiquei feliz em ler seu contraponto e nas turmas que trabalho farei um reflexão sobre o texto e o contraponto. Parabéns!!

        • Oi Afonso,

          Também tive boas discussões com meus orientandos provocadas por aquela matéria, espero que seja útil para você. É uma narrativa bem complicada e que está disseminada, infelizmente.

          Abs e obrigado pelo feedback!

  2. Finalmente encontrei um contraponto para aquela matéria sofrível, em que eles simplesmente rotulam uma geração que não segue os mesmos conceitos que eles tratam como normal.