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Eu não estava dando a mínima para a Copa da Rússia, até hoje (08/06). No caminho para a Ufes, lá pelas 10h da manhã, dois sinais de trânsito fechados foram suficientes para me lembrar (ou não me deixar esquecer) que a esperança abandonou este país e não tem a intenção de retornar tão cedo.

No primeiro sinal, encontro da Av. Nossa Senhora (vulgo “Reta”) da Penha com a Av. Rio Branco, há um vendedor ambulante de bandeirinhas do Brasil. São daquelas que você adapta ao vidro do carro e sai gritando antes, durante e depois dos jogos. Tirando a miséria da informalidade eufemizada como “empreendedorismo”, poderiam dizer que aquele senhor aproveita oportunidades e não se deixa abater pelas dificuldades (persistir para “chegar lá” e outras insanidades padrão Endeavor).

O problema é que o ambulante tem idade para ser meu pai, provavelmente na casa dos 75-80 anos. Ele tem dificuldades para descer do meio fio e caminhar entre os carros. Estava arrumado, vestindo camisa social por dentro da calça, com sapato social e tudo. Os poucos cabelos que sobraram são brancos, óculos com lentes grossas no rosto, passos contidos. Estereótipo do avô que, na crise desgraçada que arrebenta o país, financia a família com a aposentadoria curta.

Discurso (bullshitagem) pró-empreendedorismo nenhum vai me convencer que aquele senhor está vendendo bandeirinhas do Brasil no sol escaldante da Av. Rio Branco para aproveitar oportunidades. O que existe é o total abandono das redes de proteção social deste país, cujo governo desastroso empurrou milhões de brasileiros (e certamente milhares de idosos) para a informalidade. Não consigo imaginar o futuro de uma nação que coloca nessa situação desgraçada as pessoas que trabalharam a vida toda, contribuíram, pagaram impostos, criaram os filhos e agora precisam aproveitar uma pelada do outro lado do planeta para complementar a renda de casa.

No segundo sinal, logo após a sede da Petrobras na Av. Reta da Penha, outro lembrete. Há quatro ou cinco anos era muito raro encontrar crianças trabalhando como vendedores ambulantes ou pedindo nas ruas da capital. A situação se inverteu drasticamente e eles estão por toda parte. Uns vendem, outros fazem malabares e todos pedem. Isso acontece a qualquer hora do dia, longe ou perto “da periferia” (existiu um hábito escroto em Vitória de “recolher” as crianças que pediam nas áreas mais nobres). Aquele menino não tinha nem 10 anos e vendia doces. Fez o joinha simpático sem sucesso, não vendeu nada. Talvez falte algo de “Copa” no “empreendimento” dele, dirão os especialistas.

Mais omissão do Estado, mais famílias que precisam contar com o trabalho dos pequenos que deveriam estar na escola, mas não podem desfrutar deste “luxo”. Eram 10h da manhã, no meio da primeira aula após o recreio. E pensar que em 2012 eu visitei escolas municipais e fiquei desanimado com o abandono dos laboratórios de informática e com a condição precária do projeto Um Computador por Aluno (UCA). As escolas estavam cheias de crianças, pelo menos.

Podem me dizer que estes são casos isolados, que é culpa do PT, da Dilma, do Temer, da Globo… Só que a culpa é nossa. A lembrança mais forte dos meus trajetos nos tempos de universitário (+/- 2000) é outro menino. Certamente outros capixabas lembram dele. É surdo-mudo e desde muito novinho caminhava pelos arredores da mesma Reta da Penha carregando uma placa com um “Me ajude, sou deficiente…” que alguém escreveu para ele.

Entrou Lula, saiu Lula. Entrou Dilma, tiraram Dilma. Golpeou Temer, sairá Temer (amém?) e agora aquele homem continua nas ruas. Estes foram os únicos progressos da história: agora ele escreve o próprio pedido de ajuda num quadro branco e, às vezes, deixa o bigode crescer. Absolutamente nada melhorou na vida daquele menino, que não conseguiu aproveitar as oportunidades comerciais únicas das últimas quatro Copas. Não teve Bolsa Família, não teve cota em universidade, não teve Minha Casa Minha Vida, não teve PAC que fizesse alguma diferença. A situação deve estar pior, pois com a precarização da rede de proteção social, com a escassez de empregos, com a escalada da violência, com Supremo e com tudo, a vida dele nas ruas certamente se complicou.

O menino vendedor de doces e o senhor ambulante vendedor de bandeirinhas são a lembrança de que aquele homem sempre esteve e permanecerá nas ruas pela absoluta desigualdade que governa este país.

Estes somos nós e este sou eu sem esperanças. Foda-se a Copa.

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Comentário

  1. Parabéns Hugo. Belo apanhando da situação real que vivemos fora das midias e das dircordias das redes sociais onde o dono do teclado redige sua propria “oposição”…

  2. Muito bom o texto Hugo. A Copa é apenas mais uma das maneiras que o establishment usa para nos anestesiar, enquanto permanece indiferente a tudo que deveria estar fazendo em prol de quem mais precisa.