em Artigos, Pós-Doutorado

Pós-doc #4: dilemas da produção e consumo científicos

Nos episódios anteriores, comecei a me perguntar qual seria a utilidade da [minha, sua, nossa] pesquisa científica. Parte da resposta diz respeito ao consumo da produção acadêmica.

Quem lê artigos científicos em busca do que quer que seja conhece bem dois dilemas que pretendo abordar rapidamente neste post: estrutura e vocabulário. Há outros, mas, na minha opinião, estes são críticos para quem resolve entrar em novas áreas ou aumentar a complexidade nas áreas em que já transita. Acredito que o cidadão comum, leigo e curioso sofre mais pela dificuldade de vencer os dilemas da estrutura e vocabulário do que pela impossibilidade de compreender os achados.

Estrutura

Cursos básicos de elaboração de trabalhos acadêmicos nos ajudam a compreender o esquema geral: introdução, método, resultados, discussão. A revisão da literatura na introdução contextualiza o leitor sobre a produção que precede aquele trabalho, estabelece seus objetivos e enuncia justificativas. Dependendo da área, hipóteses são formalmente elaboradas, problemas de pesquisa declarados. Seja como for, o método esclarece ao leitor os procedimentos e instrumentos empregados para verificar a hipótese, investigar o problema, atingir os objetivos. Os critérios de seleção dos participantes, documentos, casos etc. fazem parte do delineamento metodológico. A seção de resultados descreve os dados coletados (via instrumentos e procedimentos estipulados no método), suas análises, categorizações, organizações, consolidações (mais procedimentos) e começa a abrir espaço para a discussão. Esta é a parte mágica, que introduz as contribuições dos autores ao pensar a produção anterior (da revisão) à luz dos achados. Ignorando a brevidade, minha descrição dá conta do estereótipo geral dos artigos.

A dificuldade aumenta com variabilidade que cada área de pesquisa confere àquela estrutura. Apesar de todos se dizerem cientistas, há diferenças enormes entre as práticas de revisão de literatura na área de saúde e, digamos, no Design: da forma de citar à escolha da idade dos trabalhos a serem citados, passando pelo rigor exigido para a formulação de hipóteses e definição do método, designers e médicos também diferem na forma e conteúdo dos achados, inferências possíveis a partir deles, validações e refutações das hipóteses. O tipo de resultado esperado em pesquisas de Design tem parâmetros avaliativos (inclusive na revisão por pares) e critérios de sucesso radicalmente diferentes mesmo em áreas afins, como Artes, Arquitetura ou Comunicação. Há ainda limitações de espaço (páginas, uso de figuras, tabelas e gráficos), exigências de formatação (fontes, espaçamentos, margens) e seções mínimas do texto, independentemente do teor do trabalho. Essas questões estão implícitas nas múltiplas estruturas, invisíveis para o leitor desavisado. Temos filósofos da ciência e isso diz muito sobre a dificuldade.

Vocabulário

Vamos assumir que a leitura frequente de trabalhos desenvolve a musculatura necessária para revelar aquela estrutura implícita e suas bases epistemológicas. Ainda assim, o leitor nunca cessa de adensar seu repertório de códigos típicos da área. Não são apenas termos técnicos, mas autores, teorias de base, jargões, paradigmas, paradoxos, piadas internas. Procedimentos podem ter (e normalmente têm) semântica local, como por exemplo a forma de construção de “hipóteses” no Design e nas ciências básicas. Bancas de trabalhos de conclusão de curso com professores convidados de outras áreas são sempre divertidas por isso. Há explicações prévias protocolares sobre a forma distinta como fazemos o que todo mundo faz, ainda que aparentemente os objetivos sejam os mesmos.

Desenvolver bom vocabulário pode atenuar dificuldades de compreensão dos dilemas da estrutura dos artigos e vice-versa, uma vez que estruturas reveladas ajudam a fornecer contextos para o entendimento dos usos dos elementos do vocabulário da área. Digo pode porque a linguagem não é estática. Vocabulários são atualizados o tempo todo, de tal forma que a leitura de textos da sua própria área escritos há 50 anos pode ser desafiadora. A estrutura muda mais lentamente, mas muda. A especialização requer esquemas explicativos que deem conta do adensamento das propostas, então a estrutura se transforma para comportar a novidade.

Há algumas décadas, por exemplo, questões computacionais estavam restritas às publicações na Matemática ou disciplinas da Ciência da Computação. Atualmente, códigos-fonte e algoritmos estão cada vez mais presentes em qualquer área e os movimentos em direção à Open Science estão balançando, num tremor só, as estruturas de apresentação dos dados e de discussão dos resultados.

Dilema do dilema

A sensação que tenho é que o esforço anterior à leitura de qualquer trabalho está superando, e muito, a leitura propriamente dita. O aumento na complexidade é positivo no que diz respeito ao potencial de novos achados, embora seja extremamente negativo quanto à acessibilidade para os não “iniciados”. Precisamos cada vez mais de autores (muitos são jornalistas) especializados em traduzir (vocabulário) e formatar (estrutura) as novidades para o público não especializado, quando a beleza do método científico residiu, em tempos remotos, nos benefícios da clareza, objetividade e comunicabilidade dos trabalhos. Em certa medida, tudo o que leitor necessitava para compreender o que o cientista procurava e o que ele encontrou estavam contidos na mesma “coisa”.

William James, um dos pioneiros da Psicologia nos EUA, levou 12 anos para escrever seu “Principles of Psychology” (1890) nas 1200 páginas divididas em dois volumes. A dificuldade de comercialização e leitura dos volumes o fizeram escrever e lançar a versão “curta”, com cerca de 350 páginas, dois anos depois. Ambos são cursos básicos para o estudante iniciante, os temas são semelhantes e o autor é o mesmo. A mudança veio do fracasso comercial, mas provavelmente também do desejo de ser lido. A habilidade de escrever as mesmas ideias em 1/4 do espaço requer mais do que reconhecer o que é dispensável.


Meu livro Design sem Designer (2013) é um texto problemático e representa brilhantemente os dilemas de estrutura e vocabulário que mencionei. O livro fala de Design o tempo todo, e mesmo assim até estudantes finalistas têm dificuldades para lerem o livro sozinhos. Curiosamente (só que não), conversas informais comigo conseguem dar conta de todas os argumentos do livro sem problemas. A estrutura é fechada autorreferente; o livro foi escrito para o leitor que sabe do que estou falando e quem estou criticando. As referências são sugeridas levemente nos capítulos e agrupadas ao final do livro, sem citações diretas. O vocabulário é consequência da minha relação particular com o Design, a Psicologia, a Computação, sendo impossível de ser completamente dominado mesmo com esforço e dedicação. Eu uso certos termos de acordo com o histórico do meu pensamento sobre eles e isto não é devidamente apresentado ao leitor.

Ainda assim, gosto do livro e o considero importante em função do que veio depois. Estabeleci um programa de pesquisa para a vida toda no último capítulo e desde então tenho tentado esclarecer e simplificar aqueles argumentos de 2013, tendo como critério de sucesso a possibilidade de compreensão por leitores não iniciados. É o sentido prático do trabalho científico na vida das pessoas que passou a me interessar, não necessariamente o respeito às estruturas e vocabulários autorreferentes das áreas que adotei como base. As consequências desses dilemas são trabalhos que ninguém lê, a menos que seja obrigado (por nota) ou para produzir mais trabalhos que serão publicados e ignorados.

Alguns anos e publicações depois, terminamos hoje (06/06/2018) outro artigo. Este trabalho pode ser útil para empresários, professores e estudantes de Design pelos dados que revela sobre as demandas de micro e pequenos negócios capixabas; pode ser relevante para gestores públicos interessados em adotar o Design como parte das estratégias de fortalecimento de empreendimentos regionais; e pode atrair a curiosidade do pequeno empreendedor, que deseja entender as contribuições potenciais dos designers para a sobrevivência de seu negócio, em vez de ser apenas objeto de pesquisas acadêmicas.

A avaliação (cega) por pares, que integra o processo de publicação na revista científica que escolhemos, é o critério de sucesso menos importante do artigo que produzimos. Houve esforço razoável da equipe do Loop para tornar o texto acessível, o método replicável e os resultados compreensíveis (mesmo com as limitações, formatações e exigências), tudo para evitar a reprodução dos dilemas. Em breve saberemos.

Se aquele mesmo candidato perguntasse novamente qual dos meus trabalhos ele poderia ler para auxiliar a elaboração de planos de governo para o país, eu teria um segundo texto a indicar. Está melhorando, mas ainda é muito pouco.

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