em Pós-Doutorado

A crise política, econômica e social do país continua, assim como a narrativa da fuga de talentos. Escrevi sobre o assunto quando Suzana Herculano-Houzel se despediu do país em 2016 e o pós-doutorado tem jogado o assunto na minha cara diariamente.

Este post não é exatamente sobre andamentos ou produtos do meu pós-doutorado. São ponderações sobre a utilidade da pesquisa que estou produzindo e do pesquisador que estou me tornando, seguindo o raciocínio do post anterior.

Decidi me inscrever no processo seletivo do doutorado em Psicologia em 2009 após ter sido aprovado no concurso para professor efetivo na Ufes. Eu desejei muito cursar o mestrado (2005-2007), mas a pressão da faculdade particular na qual lecionei entre 2004 e 2008 foi decisiva para entrar na pós-graduação. As exigências da LDB são mais cobradas no setor privado: lecionar no ensino superior requer ao menos a especialização, de forma que sem o título você é fatalmente demitido (ou escondido) quando as comissões de avaliação do Inep aparecem.

O doutorado foi muito diferente. Se eu tivesse permanecido na iniciativa privada, certamente não teria feito o doutorado; ou, pelo menos, não teria ingressado naquele momento. Ter o título de doutor, em boa parte das instituições privadas, significa aumento de custos na folha de pagamento e maior risco de ser dispensado no turnover dos semestres. Conforme já escrevi por aqui, o abismo que separa as instituições públicas das privadas é colossal.

Ter doutorado, nas instituições públicas, representa mais do que o aumento (significativo, +50%) na retribuição por titulação. A maioria dos editais de iniciação científica e fomento são direcionados a doutores e recém-doutores, o que na prática dificulta muito a vida dos mestres. Em algumas áreas e regiões, em função da escassez de pessoal qualificado, ainda ocorrem concursos para mestres. Nos grandes centros, a exigência do doutorado é inevitável nos concursos, mesmo para professor substituto.

Ao mesmo tempo, experimentamos a “revolução” do ensino superior no Brasil a partir do 1º Governo Lula – ver Incendiários 2(1). Houve crescimento expressivo das vagas na graduação e também na pós-graduação. Houve investimento em bolsas, em equipamentos, em infraestrutura e pessoal (leia-se concursos para técnicos e docentes).

Praticamente 15 anos após o início da “revolução”, o que será que ocorreu com toda essa gente graduada, especializada, mestrada e doutorada no país? A narrativa da fuga de talentos elaborada por Suzana Herculano-Houzel abordava a falta de condições mínimas de trabalho e a ausência de meritocracia na ciência brasileira. A matéria do jornal Valor Econômico (07/05/18) sugere que há outros motivos para a emigração para os EUA, mais relacionados à insatisfação com a insegurança, corrupção e busca por melhor qualidade de vida em termos gerais.

Brasileiros em fuga – Valor (07/05/2018)

Empreender legalmente em outros países é opção para poucos e escapa à discussão deste texto. Estou interessado na parte inferior do gráfico, que indica que após 2013 aumentou o número de brasileiros com mais anos de estudo tentando a vida nos EUA. A matéria lista as dificuldades para aqueles que desejam exercer suas profissões por lá (“habilidades extraordinárias”, projeção e prestígio internacional), além da capacidade de investimento necessária para custear o processo – advogados, custos com a mudança, reservas para se estabelecer sem remuneração nos primeiros meses ou anos etc.

No entanto, a reportagem não questiona se haverá espaço nos EUA (ou qualquer outro país) para tantos brasileiros com “habilidades extraordinárias”. Tampouco aborda a concorrência pesada que já existe entre norte-americanos, ou entre estes e imigrantes oriundos de países que tradicionalmente investem na formação de seus jovens nos EUA, tais como China e Índia.

McPhD com bacon…

A vida dos pós-graduados (mestres e doutores) nos EUA é tão complicada quanto no Brasil. Para aqueles que desejam seguir a carreira de docente-pesquisador, há a luta para se atingir a estabilidade (“tenure“), nem sempre alcançada por todos ou disponível para todas as faculdades e áreas. E para os que conseguem a estabilidade, inicia-se a luta da produtividade, captação de recursos, excelência no ensino e assim por diante.

Vagas na academia x doutores graduados nos EUA, 1982-2011 (Fonte: Schillebeeckx et al, 2013)

Tudo isso existe no Brasil, embora não seja trivial transplantar a experiência média do docente-pesquisador brasileiro para a realidade de outros países, com a exceção daqueles com “habilidades extraordinárias”, “prestígio e projeção internacionais” – Herculano-Houzel e Miguel Nicolelis são ótimos exemplos. O que resta ao brasileiro pós-graduado médio? Honestamente, resta aquilo que o setor privado brasileiro poderia oferecer e ainda não oferece.

Nos EUA, o desemprego de doutores nas áreas de Ciências e Engenharia girava em torno de 2% em 2015. No levantamento de 2016, cerca de 36% dos títulos foram obtidos por estrangeiros e os melhores salários para todas as faixas etárias não estão na academia, mas nos setores da indústria e negócios. Entre os doutores mais jovens (até 30 anos), a maior parte dos pós-graduados (>60% incluindo governo e outros setores) permanece fora da academia. Nas outras faixas etárias, a proporção é aproximadamente metade dentro e metade fora da academia.

E no Brasil, onde estariam as oportunidades para os doutores? O estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), realizado em 2015, indica situação bem diferente daquela encontrada nos EUA. Cerca de 75% dos doutores titulados entre 2009 e 2014 estavam empregados em 2015. No entanto, pouco mais de 8% dos doutores trabalhavam na iniciativa privada.

Se contabilizadas as entidades sem fins lucrativos, o que inclui faculdades e universidades particulares, a taxa de doutores empregados na iniciativa privada sobe para quase 25%. O setor educacional era responsável por 41,1% de todos os empregos oferecidos a doutores no país (Tabela 7.01 do relatório). Atividades técnicas, científicas e profissionais, além da indústria são os demais setores que mais contratam doutores brasileiros (12% e 22,2% respectivamente).

Considerando o tempo entre a obtenção do título e a inserção no mercado de trabalho por área, pode-se entender que a maior parte dos doutores consegue emprego nos dois primeiros anos após a defesa. O índice aumenta em todas as áreas até os cinco anos e cai em apenas algumas quando o doutor completa dez anos da obtenção da titulação.

Todos os dados encontrados parecem sugerir que não faltam oportunidades para os cerca de 200 mil doutores (estou chutando o total atual) em atividade no país. O problema é que a maioria delas está no setor educacional (91% do total) e público (empresas estatais e administração direta, 68,5%). As micro e pequenas empresas (1-19 funcionários), que geram a maior parte dos postos de trabalho no país, empregavam pouco mais de 5% dos doutores brasileiros na época do levantamento.

A fuga de talentos para o exterior não parece seguir as motivações de Suzana Herculano-Houzel em 2016 (melhores condições acadêmicas), mas a busca por melhor qualidade de vida (segurança, oportunidades para os filhos etc). Eu gostaria de encontrar dados sobre o perfil socioeconômico dos brasileiros com mais anos de estudo e que estão saindo do país. Meu palpite é que o êxodo se concentra na parcela da população que sempre teve acesso ao ensino superior e à pós-graduação, mesmo nos tempos de poucas vagas e programas de pós-graduação – a velha classe média.

Os novos doutores, formados no período da expansão 2003-2014 e que não pertencem à elite que consegue emigrar, terão o desafio de se inserir nas demais atividades econômicas do país. A vantagem é que está tudo por fazer e há carência suficiente tanto na frente óbvia de formação de mão de obra, quanto na associação ao setor privado para praticar a tal “ciência aplicada” que ocupa a maior parte dos jovens doutores nos EUA.

A escassez declarada de vagas para concursos públicos capazes de aproveitar os doutores abre espaço para discutirmos outros caminhos. O período dos debates eleitorais extra-oficiais começou e os candidatos a presidente, como era de se esperar, declaram que os investimentos em educação serão estratégicos em seus governos. A retomada dos investimentos para manter a formação funcionando é fundamental, mas também me parece importante definir políticas de inserção dos titulados na agenda de desenvolvimento do país para além da educação.

Aqueles jovens norte-americanos e imigrantes recém-doutores que atuam na iniciativa privada não foram parar lá de graça. Há uma cultura de interação universidade-empresa deliberadamente construída ao longo do século XX, cujos mecanismos podem e devem ser considerados na realidade brasileira.

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