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Os críticos de Paulo Freire são muitos, com diversos níveis de conhecimento e profundidade da obra do patrono da educação brasileira. Aqueles que efetivamente estudaram os textos “dos Freires”, reconhecem as diferentes fases do pensador que desenvolveu suas ideias ao longo das décadas que dedicou à educação.

Atualização em 12/05/2018: após a repercussão nas redes e as réplicas [1, 2] publicadas por professores da Ufes em A Gazeta, o autor do artigo original escreveu sua tréplica. Eu mantenho meu ponto e vista, especialmente por não me sentir contemplado pelos argumentos do colunista.

Na verdade, ele até reforça meus questionamentos ao reproduzir e criticar trechos “incompreensíveis” sobre a cognição incorporada, ou ao repetir a estratégia de citar diretamente passagens do livro sem o devido contexto. Eu abordei ambos os temas no post original e poderia investir bastante tempo na discussão das críticas sobre a “invenção” de termos por Freire que aparece na tréplica. O colunista fala que sofreu ataques, o que certamente não me inclui. Qualquer pessoa minimamente paciente teria aproveitado algo das questões que apresentei para elaborar tréplicas decentes. No entanto, o número de compartilhamentos e elogios ao novo artigo diz muito sobre o nível do debate público da ciência brasileira.

Aliás, falando em ciência, o último trecho da tréplica solicita que “desnudemos os bastidores” dos mestrados da Ufes. A melhor defesa é o ataque?

Não é possível falar de um único Freire, nem quanto às bases filosóficas de sua pedagogia, muito menos quanto aos métodos, às pautas ou ao papel da educação na transformação da sociedade.

Ainda assim, a maior parte das críticas (breve resumo a seguir) se concentra nos mesmos pontos: a doutrinação ideológica por meio da educação pró-revolução, a crítica às instituições opressoras (incluindo a escola e a família), o ataque ao “trabalho” que teria gerado uma nação de preguiçosos e assim por diante.

A Gazeta, 05/05/2018

O colunista de A Gazeta reproduz (ou copia) os críticos que o precederam, tanto nos argumentos quanto na falta de leitura efetiva “dos” Paulos Freires. Insisto no plural pois a revisão cuidadosa da obra não permite a unificação de todas ideias sob a mesma bandeira. Vamos a alguns copycats e seus temas centrais:

  • Alexandre Borges, 02/05/2017: Freire como responsável pela hegemonia de um certo tipo de pedagogia que forma “cidadãos” em vez de “trabalhadores”, avessa ao empreendedorismo e ao capitalismo;
  • Leandro Narloch, 03/05/2017: a apologia de Guevara e Mao por Freire, como endosso à violência disfarçada de poesia;
  • Rogério Marinho, 04/11/2017: a pedagogia freireana forma militantes em vez de educadores, ignorando métodos e achados científicos que deveriam ser ensinados aos estudantes de pedagogia; Marx seria a fonte inspiradora do método aplicado sem sucesso na gestão Erundina em SP (1989-1991);
  • Olavo de Carvalho, 19/04/2012: talvez o menos despreparado dos críticos famosos, critica as contradições da pedagogia que teria “oprimido a pedagogia” citando pesquisadores que conheceriam as práticas “de perto”. Menciona a total ausência de resultados que indicariam a redução das taxas de analfabetismo no Brasil, Chile, Porto Rico e Guiné-Bissau pela aplicação das “técnicas” que Freire teria inventado. Os vídeos dele no YouTube sobre a “fraude” são populares (mais de 150k visualizações).

É fácil encontrar as críticas em 2017 em função dos 20 anos da morte de Paulo Freire e da repercussão da proposta legislativa que pretendia revogar o título de patrono da educação. A maior parte dos artigos reproduzem os argumentos encontrados nos textos acima, reescritos em função da crítica a ser feita. Os efeitos de rede [das críticas] aparentemente continuam, subsidiando textos que herdam as fragilidades das fontes: Escola sem Partido, a proposta legislativa já citada e artigos como o publicado em A Gazeta são produtos do mesmo imaginário.

O debate científico é saudável, especialmente em público. No entanto, para ser científico não basta reivindicar cientificidade, é preciso praticá-la: pequisa e leitura sistemática de fontes em busca da validação e refutação das hipóteses (tal coisa funcionava ou não funcionava), análise criteriosa dos métodos (o de Freire, especificamente) e de suas bases (pedagógicas e psicológicas).

Honestamente, nenhum dos críticos populares que mencionei parece ter estudado Paulo Freire além da Pedagogia do Oprimido e das obras posteriores mais famosas (Cartas a Guiné-Bissau e Pedagogia da Autonomia). O motivo é claro: a pedagogia freireana pré-golpe de 1964 não é política no sentido revolucionário. Os críticos mais consistentes de Freire questionam o alinhamento dele ao nacional desenvolvimentismo e ao Iseb, de forma que a transformação social se daria pela qualificação do povo para participar do desenvolvimento produtivo do Brasil. Nada de violência, tudo pelo caminho pacífico, pelo trabalho e pelo voto.

No máximo, pode-se dizer que o projeto de alfabetizar os pobres significaria o aumento da base de eleitores para equilibrar o cenário político-eleitoral brasileiro, superando o voto de cabresto. Como analfabetos não podiam votar desde 1881, a alfabetização funcional era a prática dos coronéis que forçavam os trabalhadores da terra a aprenderem a assinar seus nomes e assim votarem em candidatos pré-definidos. A iniciativa de Freire e seus colaboradores, na direção oposta, aumentaria a base de eleitores “livres”, capazes de ler a cédula e fazer suas próprias escolhas. E não apenas a ler a cédula, mas a cidade, os jornais e o mundo “letrado”.

As 40 horas de Angicos, demonstração do método Freire que não aparece na fala dos críticos, foi a experiência pedagógica de alfabetização de homens, mulheres e crianças no interior do Rio Grande do Norte em 1963. Em apenas 40 horas e utilizando achados extremamente relevantes da época sobre o funcionamento cognitivo, a equipe do projeto estabeleceu as bases dos mecanismos de leitura e escrita daquela comunidade. Sugerir que o método ignora achados científicos significa questionar, na contramão da ciências comportamentais, que não é eficiente partir da realidade do aprendiz (os animais, a vegetação, o trabalho na terra etc.) para facilitar a aquisição, construção ou estabelecimento de novas habilidades ou comportamentos.

As 40 horas de Angicos (1963)

Há discordâncias sobre o sentido do letramento, das partes para o todo (bottom-up, sílabas às palavras que representam as coisas) ou do todo para as partes (top-down, das coisas e suas representações por imagens e palavras em direção às sílabas), mas há evidências suficientes sobre o papel do contexto como facilitador do processo. Se o contexto é de pobreza ou riqueza, farturas ou privações, é outra questão. No caso de Freire, a escassez era a realidade em Angicos, mas não há motivação político-ideológica prévia para a seleção dos temas. Não há Marx ou comunismo entre as palavras a serem aprendidas e pesquisadas no cotidiano, mas termos como belota (nome dado aos nós das redes), tijolo e barraco.

Naturalmente, ao se utilizar a discussão do cotidiano como estratégia para introduzir novos conteúdos, não se pode impedir que o aprendiz pense. O candango, que ajudou a construir Brasília e que depois foi empurrado para as cidades-satélite, conhece bem o tijolo, o barraco e a pobreza. O método conecta aquele saber à codificação da linguagem e nenhuma construção de significado é neutra. Ainda assim, não se pode assumir de antemão conteúdos ideológicos ao processo que não sejam parte da realidade daquele que está aprendendo.

Os colaboradores de Paulo Freire escreveram a parte mais rigorosa do método, tanto para Angicos como para o Círculo de Cultura de Brasília. Os artigos estão disponíveis online (introdução leve aqui), bastando a qualquer pesquisador fazer a revisão adequada das bases psicológicas e pedagógicas, do método e dos resultados identificados pela equipe. A tese de doutoramento de Freire é outra referência importante, especialmente para que se perceba a despolitização e alinhamento ao nacional desenvolvimentismo da primeira versão de Paulo Freire.

A segunda versão corresponde ao Paulo Freire perseguido e exilado. Tenho sinceras dúvidas sobre como as pessoas que criticam o caráter revolucionário dos textos escritos no exílio entendem a condição de alguém que precisou fugir do país em função das ideias que defendia. Havia um golpe de estado em curso, com perseguições, torturas e assassinatos, independentemente do grau de politização de suas ações. Discordar e questionar eram suficientes.

O Chile, para onde Freire fugiu, encontrou o mesmo destino do golpe militar que o Brasil. No entanto, nossa comissão da verdade é mera formalidade perto da chilena. Existe o Museu de Memória e dos Direitos Humanos em Santiago, com os nomes e histórias de todas as pessoas vítimas do Terrorismo de Estado que vigorou por lá. Sugerir que não houve golpe e sim anseios populares por centralização é ofensa grave em terras chilenas. Por aqui, podemos presenciar a geração de críticos que dizem que Freire defendia governos autoritários e torturadores.

O Globo – 1º de abril de 1964

Apesar de finalmente se posicionar politicamente de forma clara, Freire se situa junto aos críticos dos dirigismos da esquerda. A citação de Mao, nos textos de Freire, é justamente sobre a impossibilidade de dirigir aqueles que a educação deve libertar. Che Guevara de fato está presente, mas como os estudiosos sugerem, havia pouca ou nenhuma informação sobre os absurdos cometidos nos processos revolucionários em Cuba ou na China. É muito fácil condenar as atrocidades cometidas pelo exército americano na Guerra do Iraque (2003-2011) atualmente, quando temos acesso aos dados históricos do conflito. É necessário considerar o ponto de vista de Freire como alguém que não estava com armas em punho e sim recebendo notícias “oficiais” como qualquer pessoa. Vale sempre lembrar que para alguns jornais brasileiros, o golpe de 1964 foi uma revolução democrática.

Não obstante, outras críticas à Pedagogia do Oprimido que se concentram sobre passagens incompreensíveis (por ex., consciência e mundo se dão ao mesmo tempo; a libertação violenta dos oprimidos pode inaugurar o amor ao opressor) resultam do desconhecimento das bases teóricas de Freire. A cognição corporificada (ou incorporada), uma das abordagens mais fortes nas ciências cognitivas contemporâneas, fornece as bases da interdependência entre corpo, mente e mundo. As origens dessa vertente são anteriores à Pedagogia do Oprimido, mas ganharam popularidade com Merleau-Ponty e principalmente com Maturana e Varela, cientistas cognitivos chilenos cujos trabalhos Freire provavelmente teve contato no exílio.

No que tange à libertação violenta inaugurando o amor ao opressor, a crítica deve ser atribuída às influências do autor. O texto de Freire cita, entre outros, Erich Fromm e Martin Buber, pensadores que discutem a relação com o outro como parte de nós mesmos. Pode ser romântica, pode ser utópica, mas é uma concepção dialógica de mundo, que respeita a diferença e o convívio com o outro, em vez de desejar aniquilá-lo. A autonomia a ser conquistada pelos mais pobres (e não dada) não significaria transformar aqueles que os oprimiam em oprimidos. Freire procura o encontro, a co-laboração (trabalhar junto), inclusive anunciando a desconfiança necessária em relação a “líderes” e “salvadores” das massas.

Por fim, as demais críticas sobre a opressão da família e da escola são amplamente debatidas entre os estudiosos de Freire. Há, por um lado, influência dos aparelhos ideológicos de estado de Althusser na questão; por outro, há o foco na educação de adultos, não de crianças. Não se pode comparar a opressão sofrida por grupos sociais marginalizados e a tutela de pais sobre crianças ainda dependentes, ou ainda o regime disciplinar das escolas (por mais autoritário e punitivo que seja) e a violência de estado em regimes de exceção. A Pedagogia do Oprimido não pretende substituir os métodos Montessori ou Freinet (este último, assumidamente revolucionário porém explicitamente infantil), mas politizar o método do primeiro Freire após abandonar as convicções filosóficas [desenvolvimentistas] anteriores.

O método do segundo Freire incorpora formalmente a discussão crítica da condição social do aprendiz, procedendo pela seleção de temas (geradores) que promovessem reflexões e debates existenciais significativos. É a participação ativa daquele que aprende o motor de sua própria libertação, na interação com o outro e com o mundo no qual age. Novamente, há diversas abordagens pedagógicas contemporâneas de funcionamento semelhante: comunidades de prática, aprendizagem situada, aprendizagem expansiva, para citar algumas.

Não há dúvidas de que as abordagens semelhantes têm bases marxistas, seja pelo materialismo histórico, pela ênfase na dialética ou por desenvolverem teorias psicológicas construídas na interação com o marxismo – a psicologia sócio-histórica de Vygotsky, Teoria da Atividade de Leontiev e assim por diante. Seja como for, estamos discutindo a incorporação de achados científicos à educação, ainda que haja pessoas que acreditem que o sistema falha pela teoria escolhida, não pela aplicação equivocada dela.

O terceiro Freire é aquele que retorna ao Brasil e tenta participar da redemocratização. É arriscado sugerir que ele não fez contribuições enquanto pensador ou gestor público da área de educação no período. Os debates sobre a Universidade do Trabalhador na Zona Leste de SP [ver Incendiários 2(1)], nos anos 1980, contaram com as contribuições de Freire. Há uma geração de educadores, famosos e anônimos, que foram seus estudantes e orientandos.

Por outro lado, se qualquer versão do “método” Paulo Freire foi incapaz de erradicar o analfabetismo, onde quer que tenha sido aplicado, outras alternativas politizadas ou não, à esquerda e à direita, também não encerraram a questão. Ao contrário de outros fenômenos sociais, não se pode experimentar métodos de ensino indiscriminadamente para avaliar sua eficiência. Qualquer decisão em termos de política pública requer anos (ou décadas) para que seus resultados finais sejam avaliados, de forma que o melhor que podemos fazer é replicar experiências exitosas.

inúmeros estudos sobre a aplicação das técnicas de Freire (principalmente palavras geradoras e temas geradores) que não mantêm relações explícitas com qualquer ideologia partidária. Ainda não chegamos ao cúmulo de tentar banir a zona de desenvolvimento proximal da pedagogia por ter surgido na URSS e, se chegarmos, caberá aos pesquisadores da psicologia sócio-histórica alertarem os críticos sobre os questionamentos que o próprio Vygotsky tinha em relação ao partido e aos rumos da educação soviética.

Em síntese, não é possível identificar um ou dezenas de responsáveis pelo fracasso da educação do Brasil ou qualquer nação. É possível investigar, pesquisar e reunir argumentos sólidos para contribuir para a realização de escolhas cada vez mais acertadas, sem achismos, reprodução de críticas infundadas e falta de rigor científico.

PS: Recentemente, na pesquisa do pós-doutorado, descobri que James G. Holland, colaborador de B. F. Skinner e um dos expoentes da análise experimental do comportamento, contribuiu ativamente na programação de ensino que erradicou o analfabetismo em Cuba. Disseram “vá pra Cuba” e ele foi.

PS2: Originalmente indiquei que os aparelhos ideológicos de estado seriam de autoria de Jürgen Habermas, quando na verdade são de Louis Althusser. Obrigado à Profª Ana Heckert (Ufes) pela leitura e correção.

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Comentário

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  1. Creio eu que há de se escolher bem os interlocutores… Tu, meu grande amigo Cristo, tem a toda a paciência que me falta para lidar com interlocutores “difíceis”.

    Posso estar até ficando velho e – mais – intolerante, mas com certeza vejo em você um exemplo de “esperança”… Um exemplo de “fé na semiose alheia” que eu preciso recuperar.

  2. Senhor Hugo.
    Você usa links da Wikipedia em seu texto. Por favor, digo como leitor, respeite seus leitores. Nem todos são fruto da “educação libertadora” de Freire. Alguns de nós andamos na contramão de sua teoria.
    Sugiro que leia um livro diálogo de Ira Shor com Paulo Freire. Nele, este derrama rodo o seu amor pelo marxismo cultural. Só para que o senhor entender que, independente das “fases” de Paulo Freire, ele sempre foi um apaixonado por Marx, não necessitando, portanto, de utilizar Marx em textos ou contextos de alfabetização, como colocou no texto acima.

    • Prof. Davidson,
      Não há falta de respeito com os links para a Wikipedia. Aponto para verbetes biográficos, auxiliando o leitor a saber de quem estou falando e a encontrar referências básicas para estudar os autores citados, que sempre estão disponíveis na seção final.
      Em relação ao marxismo cultural, não foi o objetivo do meu texto questionar o alinhamento de Freire àquelas ideias, pelo contrário. Eu *reafirmei* as bases marxistas no trecho final e ainda inscrevo Freire no cenário mais amplo de outras abordagens (Vygotsky, Leontiev etc).
      Estou discutindo explicitamente os aspectos cognitivos do método, geralmente ofuscados pelas críticas ao marxismo. Defendo que o debate sobre as políticas públicas educacionais sejam orientadas por dados sobre a eficiência de cada abordagem, não por ideologias à esquerda ou à direita.
      Agradeço pela dica do livro, são sempre bem-vindas.