em Artigos, Pós-Doutorado

Falar que a ciência é fundamental para o futuro do país é fácil. Se você pudesse persuadir pré-candidatos à presidência a lerem um dos seus artigos científicos para ajudar na elaboração do plano de governo do país dos seus sonhos, qual seria?

Temos quase duas dezenas de pré-candidatos à Presidência da República. Educação, desenvolvimento científico e tecnológico fatalmente aparecem nas falas de cada um deles como propulsores do crescimento da economia, da melhoria da qualidade de vida da população, da oferta de serviços públicos e privados mais eficientes, capacidade de defesa, manutenção da soberania e assim por diante.

Mas qual a utilidade real da pesquisa científica para o país? A disputa entre torcidas de futebol não facilita o trabalho dos cientistas que buscam qualificar o debate. Casos recentes de bots e minions que tentam desqualificar as economistas Monica de Bolle (já falei dela aqui) e Laura Carvalho são emblemáticos.


Por mais que as duas tenham construído carreiras respeitáveis dedicadas à pesquisa econômica (Monica nos EUA e Laura na FEA-USP), a camada ideológico-partidária que envolve os argumentos dos críticos parece aniquilar a discussão. A paciência das duas é incrível e extremamente necessária para que se cumpra uma das etapas mais relevantes da produção científica: a divulgação.

A pergunta sobre a utilidade da ciência para o país envolve necessariamente a discussão dos mecanismos por meio dos quais o cidadão comum têm acesso aos benefícios (ou prejuízos) das descobertas científicas. Crescimento, desenvolvimento, oferta de serviços, soberania e todo o resto só podem ser impactadas pelos produtos da ciência quando estes chegam à ponta.

Os caminhos são variados, incluindo tweets, novidades frequentes nas livrarias e bibliotecas ou mesmo artigos para professores atualizarem seus conteúdos programáticos em sala de aula. Palestras, seminários, entrevistas na TV, podcasts e canais mantidos por cientistas youtubers são importantes nos dias de hoje, por causa da audiência que alcançam e eventualmente do debate que abrem para o cidadão comum – o melhor [e o pior] da Internet está nos comentários.

A ideologia da pesca.

Assumindo que os mecanismos de divulgação científica existem, a pergunta seguinte seria sobre a eficácia deles. O Brasil é extremamente desigual, com assimetrias colossais históricas no que tange o acesso à informação. A consolidação de ideologias envolve o bom funcionamento de filtros sobre os fatos sociais, contribuindo para que determinadas narrativas tornem-se hegemônicas, conforme o interesse dos grupos que constroem e mantêm os filtros: Estado mínimo ou máximo? Taxa de juros alta ou baixa? Dólar ou Real valorizado? Escola com ou sem partido? Nazismo é de esquerda ou direita? Design é arte? Representacionismo ou conexionismo? Foi golpe ou não? Dar o peixe ou ensinar a pescar? 

Estas e muitas outras questões são objetos de estudo de pessoas que, por estratégias diversas, oferecem hipóteses, teorias, interpretações e análises dos fenômenos naturais, sociais, e da imensa área cinza entre os dois. No processo, a ciência exige disputas, discordâncias e refutações constantes. O entendimento do progresso científico é em si mesmo área de embates infinitos, mas posso sugerir que a ciência busca verdades temporárias, sem muito risco de parecer reducionista.

Trabalhamos todos em busca das novas verdades explicativas que darão conta dos fenômenos de forma cada vez melhor que as precedentes. Disrupções são coisas de cinema (principalmente blockbusters), pois geralmente o processo é incremental, lento e procede por revoluções moleculares – um passo após o outro, saltos são raros. O status de equilibrista é parte da dinâmica científica: os achados balançam e não caem enquanto conseguirem manter-se de pé na corda bamba frente às críticas, novos dados e teorias alternativas.

Voltando ao cidadão comum, as dificuldades de aproveitar as contribuições da ciência no cotidiano são complicadas tanto pela confusão gerada pela adaptação às informações provenientes da corda bamba, quanto pelo aumento expressivo na frequência dos balanços. Minha geração cresceu no consenso da papinha Nestlé; hoje o potinho é tido como última alternativa pelas mães que podem pagar por ele. Ômega 3 foi de herói a panaceia em menos tempo. Assistir programas de variedades televisionados significa descobrir novas doenças terríveis na pia de casa diariamente.

O impacto da ameça da esponja de cozinha é pequeno por diversos fatores. Temos mecanismos cognitivos importantes de resistência à novidade, que basicamente a conformam ao conjunto de crenças que já elaboramos. E isso vale para o tamanho do Estado, ideologia da escola dos filhos ou as aulas de pesca do Trump. Nesse sentido, a divulgação científica, além de informar, precisa persuadir. A escolha dos argumentos pode ser direcionada tanto a outros pesquisadores que estão sacudindo a corda quanto ao cidadão comum que quer saber se joga a esponja fora, muda o filho de escola ou compra a vara de pesca.

Por mais difícil que seja o trabalho de divulgação científica, ele precisa acontecer. Em tempos quando as “certezas” estão por todo lugar, o autoritarismo tem infinitas oportunidades de ampliar seus filtros ideológicos, contando inclusive com o aporte de interpretações instrumentais da produção científica. Infelizmente, acreditar que as escolas e universidades são antros de doutrinação esquerdista não é muito diferente das crenças que mantêm ou não a esponja velha na pia. Sem informação que ajude a reduzir os vieses inevitáveis, qualquer tema se torna briga de torcida.

A ciência é motivada pela exploração contínua das nossas dúvidas, não pela instauração de verdades definitivas. Há filósofos suficientes alertando sobre as consequências negativas da fé na ciência como fonte última da verdade. Posições científicas não podem ser fechadas em si mesmas sob pena de se tornarem parte das ideologias que reivindicaram combater.

Tenho encontrado, na minha pesquisa, muitos autores que defendem que os cientistas deveriam ponderar sobre a utilidade social do que produzem. O que levaria o pesquisador a desejar publicar seu livro? Como definiria o recorte do público que melhor aproveitaria os resultados (especialistas ou leigos e curiosos)? Valeria o esforço reescrever o que foi publicado por outros cientistas e oferecer novos pontos de vista? Como a sociedade, que aceita e endossa a empreitada, seria beneficiada?

Esta última questão é de tirar o sono. Enquanto servidor público, professor de universidade pública financiada com o dinheiro do contribuinte e sistematicamente acusada de ineficiência, doutrinações e mantenedora de regalias, me pergunto diariamente como defender a instituição dos críticos que associam a autonomia universitária à anarquia universitária.

A autonomia universitária é fundamental para que se pesquise sem amarras, sem que a crítica seja estrangulada pelas instâncias que a financiam. Só uma universidade livre, onde o direito à livre exposição de ideias com as devidas consequências pode viabilizar que professores possam ministrar aulas sobre a ineficiência do ensino superior ou questionar pesquisas realizadas por alguém que hoje ocupa cargos na administração central. Tem que ter disciplina dizendo que foi golpe e dizendo que não foi, aberta à participação das posições discordantes. A comunidade universitária só pode falar bem ou mal da universidade dentro dela porque ela é autônoma.

A ressalva a ser feita é que muitas instituições autônomas também podem ser fechadas em si mesmas. Os limites físicos correm o risco de se tornarem limites ideológicos ou de interesses, virando as costas para a sociedade que, ao fim e ao cabo, aceita e endossa as várias empreitadas que acontecem intramuros, mesmo que sem plena anuência ou consciência disso. Olhando de fora, parece realmente anarquia em vez de autonomia.

Na minha pesquisa, estou tendo a oportunidade de estudar um debate intenso que ocupou praticamente 30 anos da história da educação norte-americana e seus impactos nas políticas educacionais brasileiras. As pessoas estavam efetivamente preocupadas com as consequências da aplicação de fundamentos filosóficos rivais à pesquisa da aprendizagem humana (cognitivismo versus behaviorismo). O embate aconteceu nos artigos, livros e eventos científicos, como também na imprensa leiga, nas assembleias das associações de classe e pautas das reuniões de agentes públicos, de diretores de escolas ao congresso.

Mães e pais precisavam estar informados para decidir se levavam ou não para dentro de casa as tecnologias do ensino emergentes no período, assim como o professor precisava compreender se os avanços ameaçavam seu emprego e a qualidade da educação que seus estudantes receberiam.

Se o deslumbramento por aquelas tecnologias passou e outra leva de teorias e aplicações tornou-se mais forte, certamente não foi apenas por decisões baseadas em entrevistas de 15 minutos sobre os riscos de esponjas e pias de cozinha à saúde da família. As contribuições daqueles pesquisadores no processo são notáveis, tanto nos círculos especializados quanto na mídia de massa. Comissões governamentais e de associações profissionais foram criadas, recomendações elaboradas, relatórios publicados e páginas e mais páginas de jornais e revistas populares foram recheadas de argumentos elaborados por diversos grupos de trabalho no tema.

Hoje a situação é, no mínimo, estranha. Apesar do crescimento exponencial das fontes de informação e espaços de debate, ainda temos Ministros criando recomendações educacionais de cima para baixo, sem envolver professores ou fundamentos científicos, e não estou falando apenas do Brasil. Qualquer pesquisador da área de educação poderia se perguntar por que o Ministro francês adotou tais recomendações e não outras, considerando os resultados da produção acadêmica disponíveis. Esse tipo de medida, com requintes de autoritarismo, tem suas referências, ideologias e verdades. As fontes estão lá, embora não sejam as nossas fontes.

Os reformadores jamais buscarão as bases da reforma naquilo que será reformado. A reforma vem de fora, vem de cima, de baixo ou dos lados, nunca de dentro. Para o reformador, se a instituição é ineficiente (de acordo com critérios dele), dificilmente teria as respostas para seus próprios problemas, caso contrário já teria empreendido mudanças para superar a crise. E assim seguimos desdenhando engenheiros de tráfego e urbanistas que falam sobre mobilidade urbana, economistas que falam sobre juros e professores que falam sobre ditados.

A crise do escritor é não ser lido. Acho que a crise do pesquisador é ter seus achados ignorados. Com duas dezenas de candidatos à presidência, aqueles que incluem estudiosos na equipe e procuram oferecer fundamentos científicos para as propostas não necessariamente têm vantagens nas intenções de voto. A vantagem é daquele que é convicto, que tem certezas.

Cientistas têm apenas dúvidas e estas não são úteis para aqueles interessados em governar por verdades.

Comecei minha “carreira” acadêmica em 2002, quando publiquei um trabalho ingênuo no Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design (P&D). Dezesseis anos depois, acredito ter feito apenas uma contribuição relevante para a área na qual estou inserido (Psicologia) – o openEvoc. Uma análise fria e realista da maior parte da minha produção científica confirma o fechamento sobre si mesmo permitido aos pesquisadores. Meu único consolo está na extensão que faço, que por definição estabelece algum grau de compromisso com a sociedade.

O openEvoc é um serviço que resolve alguns dilemas típicos da ciência brasileira (falta de recursos, tecnologias em outros idiomas, pirataria) e é a única coisa que fiz que realmente me aproximou de outros pesquisadores pela contribuição em si, não por amizade ou afinidade de interesses. A escala é muito pequena (pouco mais de 500 usuários), mas comparada aos resultados de meus outros trabalhos, posso dizer que “pelo menos” o endosso da sociedade (ou sua parcela acadêmica) gerou benefícios mensuráveis. Consigo medir e avaliar o impacto daquele trabalho sem recorrer a métricas exclusivas do universo científico (número de citações, fatores de impacto do periódico, meu próprio índice acadêmico etc).

A opção por retornar ao básico no pós-doutorado tem relação com essa sensação de falta de contribuições minhas aos problemas reais do país. Se qualquer um dos pré-candidatos me chamasse para perguntar quais dos meus trabalhos ele deveria ler para ajudar na elaboração do plano de governo do país dos meus sonhos, eu teria apenas uma recomendação. Até o momento este artigo nunca foi citado, embora o trabalho que o gerou tenha contribuições efetivas na vida de algumas famílias que nunca leram nem provavelmente lerão o texto (o que também me incomoda, mas de outras maneiras).

Qual a utilidade da [minha] pesquisa científica? Qual é a utilidade da sua? O que você mandaria para o e-mail do seu candidato e o persuadiria para ler para ajudar a mudar o futuro do país?

PS: A lista completa das minhas publicações desde 2002 está aqui.

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  • Pós-doc #4: dilemas da produção e consumo científicos – Hugo Cristo, Designer

    […] episódios anteriores, comecei a me perguntar qual seria a utilidade da [minha, sua, nossa] pesquisa científica. Parte da resposta diz respeito ao consumo da produção […]

  • Pós-doc #3: exportação de talentos e vida pós-academia – Hugo Cristo, Designer

    […] Este post não é exatamente sobre andamentos ou produtos do meu pós-doutorado. São ponderações sobre a utilidade da pesquisa que estou produzindo e do pesquisador que estou me tornando, seguindo o raciocínio do post anterior. […]