em Artigos

Vitória é uma cidade peculiar, laboratório social dos conflitos entre o meu e o nosso. Os casos recentes da Linha Verde e do Parque Tecnológico reforçam a tese das tensões entre duas concepções de mundo no município, nada mais que um microcosmo do que acontece no país (e no planeta).

Antes de parecer repetitivo e reproduzir discursos que acirrem o embate entre esquerda e direita, esclareço que meus argumentos não são opiniões e estão fundados em três linhas de raciocínio.

Em primeiro lugar, pessoas alinhadas aos diferentes matizes políticos têm plenos direitos de viver suas verdades, mas o mesmo não pode ser dito sobre ter seus fatos. A parte mais frágil dos debates sobre o direito à cidade é o completo desprezo sobre a produção científica sobre o fenômeno urbano. Discussões sobre “parques tecnológicos” que produzirão “ciência e tecnologia” deveriam ser exemplarmente fundamentadas em dados sobre iniciativas semelhantes, com avaliações críticas sobre pontos negativos e positivos de cada decisão.

Em segundo lugar, sou designer, não gestor público, urbanista ou sociólogo. Essa declaração implica modos de analisar o problema e discutir alternativas que podem não ser considerados “tradicionais” no embate público. Entretanto, no contexto dos parques tecnológicos, o design tem sido promovido à categoria de modo de pensar, de estratégia de inovação e oxigenação das práticas. Proponho aos leitores destes argumentos a não convidarem os designers para o debate apenas quando convém, respeitando o potencial das contribuições destes e de muitos outros projetistas.

Finalmente, fatos e design têm sido sistematicamente articulados em meus argumentos em direção a determinados modelos de cidade desde 2015, quando comecei a pesquisa que deu origem a iniciativas como o Cidades e o texto “Qual a inteligência das cidades inteligentes?“, publicado no livro Urbanidades:Mediações (Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade de Brasília – UnB). As referências e fontes que sustentam meu ponto de vista estão disponíveis naquele capítulo. Reconheço que se trata de leitura não trivial, mas intervenções de tamanha magnitude no espaço urbano são igualmente não triviais. Não sou contra o Parque, como disse anteriormente. Sou contra a falta de embasamento nas decisões sobre ele.

Com o devido respeito aos empresários do setor de tecnologia, a literatura da área de inovação não sustenta exclusivamente a especialização do arranjo produtivo como solução para os parques. Há diversos trabalhos apontando os riscos econômicos e sociais da especialização (a “exclusividade” desejada pelos empresários). A atividade única pode resultar em pouco diálogo com o entorno, uma vez que a inovação não emerge apenas de conjuntos de empresas que fazem coisas semelhantes atuando em proximidade, mas também de perturbações e provocações de empresas de diferentes setores atuando no mesmo espaço. O restaurante da esquina de hoje é o parceiro da nova tecnologia de pagamentos de amanhã; a portaria do prédio ao lado pode ser o laboratório de sistemas de controle de acesso e segurança; a escola da rua da frente pode ser beneficiada por tecnologias educacionais e oferecer, em contrapartida, participantes para pesquisas com os novos produtos.

Além da diversidade significar oportunidades de inovação, a criação de zoneamentos específicos por força de lei, em vez de fortalecer arranjos orgânicos, é igualmente alvo de disputas. O tipo de benefício criado para atrair empresas e capital humano artificialmente têm consequências, no mínimo, discutíveis.

Os casos do Porto Digital em Recife (PE) e da Cidade Multimídia em Montreal oferecem muitas questões para reflexão: especulação e concentração imobiliária; abandono da região com o fim das benesses fiscais oferecidas pelo poder público; pouco diálogo das empresas com o entorno, com destaque para a instalação de negócios intensivos e mão de obra pouco qualificada (e mal remunerada) executando serviços de segunda linha para matrizes instaladas em outros lugares (offshoring e outsourcing).

Os motivos pró-especialização

Os motivos apresentados pelos empresários do setor são coerentes, embora precisem ser analisados a partir de experiências anteriores. A luta pelo parque tem quase três décadas e é evidente a necessidade de novas fontes de arrecadação para o município. As dimensões do arranjo, pela lógica da diversificação, não são relevantes. Arranjos produtivos são o que são em função da interação entre pessoas, não pela área disponível. Conheço pessoalmente diversos polos de inovação impressionantes que funcionam em prédios dentro [1, 2] e fora [3] de universidades, pavilhões [4], ruas [5] (inclusive em Vitória) e áreas urbanas revitalizadas (o próprio Porto Digital, ou o questionável Porto Maravilha).

A geração de empregos associada à fundação dos parques é extremamente controversa. Há séries históricas evidenciando a precarização do trabalho no Vale do Silício, na área técnica e especialmente nos serviços de apoio; a terceirização de atividades-fim era realidade no Porto Digital antes mesmo da reforma trabalhista de 2017; dados do Ipea e do Instituto Jones dos Santos Neves indicam alta informalidade na economia criativa, um dos principais setores de alavancagem dos parques tecnológicos.

Quanto à valorização do entorno, os exemplos do Porto Digital, Cidade Multimídia e Porto Maravilha demonstram que a regra é valorizar pela via da especulação e concentração imobiliária nas mãos de poucos agentes. Tais efeitos estão amplamente documentados pela produção científica nacional. “Valorizar o entorno” é a justificativa recorrente dos grandes projetos de reurbanização, que nos casos do Rio e Recife resultaram em expulsões (econômicas ou pela força). O Parque Tecnológico de Vitória será construído em área desocupada, o que não significa que as consequências da gentrificação futura não estejam no horizonte.

Na prática, os exemplos que conheço indicam a possibilidade de nem precisarmos do Parque, considerando a quantidade de imóveis públicos sem uso pela cidade e a existência de legislação municipal que já deveria atrair empreendimentos do setor de tecnologia para o Centro. Ainda assim, os demais argumentos não se justificam: o uso misto do espaço intensifica a circulação de pessoas, enquanto a especialização contribui para o esvaziamento do espaço público. Bairros ou ruas essencialmente residenciais da capital conhecem bem o problema. Moradores, comércio, restaurantes, serviços e afins dão vida ao território juntos. As cidades mais avançadas na discussão de qualidade de vida aproximam a habitação do trabalho, do estudo e do lazer, propondo uso mais inteligente e igualitário do solo. Este último ponto nos leva ao dilema da Linha Verde.

A Gazeta, 21/03/2018

A cidade é para quem? Enquanto o transporte coletivo for de baixa qualidade, dizem os críticos, deve-se garantir o direito de livre circulação dos proprietários de automóveis sem faixas exclusivas para ônibus. Por outro lado, as boas práticas urbanísticas caminham irreversivelmente ao abandono do automóvel individual como modal. É fato que a transição não acontecerá sem conflitos, embora ainda acredito haver consenso de que o interesse coletivo deve se impor ao individual.

A Linha Verde não é um serviço muito distinto do Parque Tecnológico. Ambos são tentativas de melhorar a qualidade de vida na cidade sob o ponto de vista da sustentabilidade – ambiental, social e econômica. Nenhuma iniciativa da administração pública poderia preterir demandas coletivas em função de interesses corporativos, sejam lá quais forem. Nos conflitos que descrevo, motoristas de automóveis são como empresas de tecnologia: representam uma fração reduzida do universo de suas respectivas populações (cidadãos e pessoas jurídicas), porém com forte capacidade de articulação, formação de opinião e de pressão sobre a administração municipal.

A tensão entre diferentes concepções de mundo que mencionei na abertura deste post é capaz de resolver contradições entre o público e privado para satisfazer interesses. O motorista de automóveis é contra a exclusividade do uso do espaço público (vias) e o empresário é favorável (parque). Entretanto, em ambos os casos o interesse coletivo está em segundo lugar: busca-se o direito de explorar o espaço público (vias/parque) da forma que melhor contribuir para que alcance seus objetivos (deslocamento rápido ou gerar negócios).

Motoristas e empresários ignoram fatos urbanísticos conhecidos utilizando argumentos baseados na escassez de recursos (são poucas faixas para tornar uma exclusiva; há muitas áreas para habitação e para o parque só aquela), no direito adquirido (sempre fui trabalhar de carro/o parque sempre foi de uso exclusivo), na participação como processo decisório (a população não foi ouvida sobre a faixa exclusiva; a população já foi ouvida sobre o parque) e na hipótese do mundo ideal (quando o ônibus for bom deixarei o carro em casa/Vitória é a única capital do sudeste que ainda não tem parque tecnológico e se tiver…).

Como designer, acredito que a Linha Verde explora melhor as possibilidades de repensar o espaço público. Apesar das críticas sobre o início tímido (restrito à orla de Camburi), o trecho reúne características ideais para a prototipagem e avaliação da solução (sinais com intervalos adequados, poucos entroncamentos, linha reta etc.). Há pouca ou nenhuma necessidade de intervenções drásticas para testar o sistema, que em última análise piorariam o trânsito. Existem caminhos alternativos e até mudanças de comportamento possíveis para as pessoas impactadas pelos testes (mudar a rota, sair mais cedo ou mais tarde). A tentativa é tão leve que pôde ser suspensa por liminar.

O caso do parque é outro. Há muitos questionamentos sobre a real vocação do município a ponto de elegermos o desenvolvimento de software como nova matriz econômica (a literatura sobre os “escolhidos” na Economia é farta). Certamente teremos outros ramos tecnológicos no espaço, embora a realidade dos demais parques indique o predomínio dessas atividades, mesmo em versões de segunda linha (centro de testes, desenvolvimento de partes de produtos, helpdesk, call center…). Os recursos para a obra, por mais que sejam carimbados para tal, não serão pequenos. A intervenção será imensa, como qualquer grande obra, e sabe-se muito pouco sobre a governança do que será construído. O histórico de outros parques aponta para a interação entre pessoas como ativo mais relevante, com o espaço físico sendo um suporte não determinante. As iniciativas locais de polos tecnológicos (Ifes, Ufes, TecVitória, Fábrica de Ideias, Centro de Apoio ao Empreendedor) reforçam a tese de que o que aconteceu até então dependeu menos de terra do que gente.

Não seria o caso de considerar todos os fatos disponíveis e começar pequeno, fortalecendo os arranjos que existem, promovendo aproximações (físicas, inclusive) entre os potenciais contratantes das tecnologias atuais e futuras? O Porto Digital tem como principais clientes os próprios pernambucanos (principalmente o Governo). Por que o nosso caso seria diferente?

E se tudo der errado ou aparecer uma liminar, não teremos mais um prédio público desocupado, cercado de nada por todos os lados.

Comente

Comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.