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Sobre jabs e uppercuts

O texto a seguir foi encaminhado como mensagem para listas de discussão, amigos, colegas e alunos com os quais me relaciono e com quem tenho discutido frequentemente para onde o design pode ir. Resolvi compartilhar no blog porque acho a discussão relevante para qualquer pessoa interessada em design e porque pretendo avançar em partes dos temas em números futuros do Incendiários.

Perdão pelo envio indiscriminado e em massa de uma mensagem tão longa. Achei que seria do interesse de todos e, de certa forma, gostaria de retomar a discussão dos dois textos com todos (cada grupo a seu momento, obviamente).

jab é de 2010 e eu não conhecia o texto. Saiu no caderno Design da Fast.co e apresenta uma crítica bem severa à formação em design nos EUA e em partes da Europa. O ponto de vista é do Gadi Amit, que já foi da Frog Design e dirige a New Deal Design nos EUA. Ele repete falas comuns, mesmo aqui no ES (talvez em BSB, PE, SP…), sobre o abismo de competências que separa o recém-graduado do designer “júnior” esperado pelo mercado.

O texto aborda tipos específicos de formação que estavam chegando ao mercado de trabalho por lá, há cerca de sete anos, e que também observo por aqui. Fala da falta de foco dos cursos, formando generalistas (bagunça nas grades), critica a passagem direta da graduação aos mestrados sem que o aluno tenha bagagem profissional e propõe direcionamentos explícitos para os currículos dos cursos superiores como alternativa. Por exemplo, “formamos gente especializada para desempenhar a função X no setor Y do mercado”.

https://www.fastcodesign.com/1662634/american-design-schools-are-a-mess-and-produce-weak-graduates

O segundo texto, que é o uppercut e que me levou ao primeiro, foi escrito na semana passada por alguém que desconheço, Yazin Akkawi, sócio de uma consultoria de design chamada MSTQ. Cheguei até ele porque tenho um “radar” para os textos que citam o Donald Norman, que é (na minha opinião) co-responsável por essa bagunça toda. O texto saiu na revista Inc:

https://www.inc.com/yazin-akkawi/the-future-of-design-education-is-no-design-educat.html

Resumindo, o autor sugere que a educação em design é fundamental, embora as escolas não sejam. Eu concordo com todos os elementos da frase do ponto de vista sintático, embora não poderia discordar mais da semântica: a formação tradicional em design (que estou assumindo que seja o “núcleo duro” – forma, cor, composição, tipografia, materiais, design da informação e assim por diante) não é mais suficiente para suprir as demandas de colocação das novas gerações no mercado e a formação autodidata (principalmente online) está satisfazendo essa ausência de forma irreversível.

Parte dos argumentos dele é baseada no relatório Design Tech Report, do John Maeda. Para quem não conhece, ele é um dos expoentes da mudança da filosofia do sistema educacional norte-americano de STEM (Science, Technology and Math) para STEAM, (incluindo Arts), além de ter dirigido grupos importantes no MIT Media Lab, ter orientado a criação do Processing, o reboot da Rhode Island School of Design etc.

https://designintechreport.wordpress.com/2017/03/11/design-in-tech-report-2017/

Maeda defende questões ligeiramente distintas daquelas apresentadas no artigo do Akkawi, mais relacionadas à necessidade de humanizar e tornar a tecnologia e ciências duras mais criativas (via artes). Foi um dos primeiros a defender e continua defendendo a formação em pensamento computacional (computational thinking) em todas as áreas.

Akkawi citou a pesquisa do Maeda, aparentemente, porque ela tem dados do censo Google + AIGA no qual 86% dos participantes (estudantes) relataram aprender online as competências que julgam “contemporâneas” para a atividade do designer: trabalho em equipe (versus individual), prototipagem (versus intuição), formação em negócios (versus rejeitar o mercado ou “se vender”). O mercado que ainda cresce e emprega, pela pesquisa do Maeda, é digital.

Para contextualizar, o texto do Akkawi tem (neste momento) cerca de 1.4 mil “likes” no Medium, o que ainda é muito pouco nas redes. No entanto, os comentários e a repercussão é o que importam. O texto faz parte de um movimento forte que deslocou o eixo da formação em design para esse discurso do “intangível” e do “humanizado”, “co-criativo” e, principalmente, business-centric.

A pesquisa do Maeda indica que todas as grandes escolas de negócios possuem seu programa de Design Thinking em operação (MIT, Harvard, Yale, Stanford, Insead, Berkeley e aqui não é diferente) e os exemplos do Akkawi (Apple, Netflix, Uber…) reforçam o mantra de que os “futuros designers” virão de qualquer área, não necessariamente das escolas de design.

Embora o primeiro texto reclame da precariedade dos portfólios e da formação deficitária como consequência da bagunça das escolas (em diferentes aspectos) frente às demandas do mercado, o segundo diz que o mercado deu um jeito e que a demanda será satisfeita apesar das escolas. Na verdade, pelo tom, não estamos mais atrasados, estamos ensinando as coisas erradas.

Enviei este texto para cada um de vocês por motivos distintos e acredito que todos seriam beneficiados pela discussão das três referências. Me comprometo a compartilhar as trocas entre os grupos, considerando a impossibilidade de seguir essa discussão por e-mail:

  • O NDE do Curso de Design da Ufes está na reta final da discussão e redação do novo projeto pedagógico. Um dos temas da última reunião foi o mercado capixaba moribundo ou inexistente, que teoricamente não seria parâmetro para nivelar a qualidade da demanda em design. Fiz um contraponto na reunião e acho que os dois textos oferecem argumentos distintos daqueles que eu usaria e ainda assim são dignos de debate. Também vale recuperar a pergunta: que egresso imaginamos para o nosso curso? E que curso é esse, capaz de gerar tal egresso?
  • A tentativa de aproximação dos grupos Ufes-UnB-UFPE-UFG passa por essa discussão das competências do pensamento computacional, além da questão de estarmos todos fora do eixo que consumiria as “tendências”. Até que ponto nossas cidades empregam design thinkers? Eu sinceramente acho que o mercado para os computational designers é imenso até nas nossas cidades, mas a formação deles é a tradicional (STEAM) e não a da modinha. A grade que pula para essa visão de negócios abre mão da formação pesada (lógica, matemática) em favor de post its e etnografia com requintes de terapia de grupo.
  • A predesconferência tem discutido sistematicamente os prós e contras do design thinking para a área como um todo. O texto do Akkawi é um movimento na extrapolação dos limites do cursinho de 4h que forma thinkers em direção a um mundo no qual as escolas de design sequer seriam necessárias.
  • Balaio e Lifebrand estão envolvidos na fundação da associação profissional capixaba. Nunca antes na história desse país eu achei tão importante o mercado ser ouvido, especialmente considerando o potencial desmonte da única universidade pública que ainda oferece curso superior em Design no ES. Se o mercado é ruim e a universidade tiver que fazer sua parte para mudar, que parte seria essa?
  • A equipe do Loop tem a crise mais linda do mundo: o que fazer quando se formar, sem vender a alma <3

Abs a todos e boa semana.

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