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A evolução debatida para o parque tecnológico

Este pequeno texto realiza questionamentos ao artigo “A evolução do parque tecnológico“, de José Vicente Pimentel, presidente da Companhia de Desenvolvimento de Vitória – CDV, publicado no dia 07 de setembro de 2017 no Jornal A Gazeta e Portal Gazeta Online. Escrevi o texto e enviei para o jornal, torcendo para ser publicado. Por isso, o espaço é curto e tentei restringir os argumentos a 518 palavras, 200 a mais que o original.

PS: Todas as referências dos dados e estudos mencionados podem ser encontradas no capítulo “Qual a inteligência das Cidades Inteligentes?” que escrevi para o livro “Urbanidades: mediações” (CÂMARA E SANTOS, 2017) e no livro “A inteligência das Cidades” (lançamento em breve).

Os parques tecnológicos espalhados pelo mundo compartilham mais que as três características citadas pelo Diretor-Presidente da CDV. A evolução também precisa ocorrer no debate, superando as justificativas econômicas, considerando os impactos da iniciativa no urbanismo, nas oportunidades de trabalho e na qualidade de vida de toda a população do município no longo prazo. A característica mais importante do nosso parque tecnológico não foi mencionada no artigo do Diretor-Presidente: o financiamento pelos impostos do contribuinte.

A concentração geográfica integra o repertório de estratégias formais de desenvolvimento regional desde os distritos industriais marshallianos do século XIX, assim como as controvérsias. A mera proximidade espacial nem sempre é suficiente para catalisar a aproximação das empresas entre si ou com a academia. Temos o celebrado Porto Digital no Recife (PE) como exemplo da dificuldade de integração. Por outro lado, a especialização do arranjo pode ser arriscada em momentos de crise do setor associado, especialmente para os trabalhadores que não terão alternativas de recolocação. É por isso que há economistas e urbanistas que defendem diversificar organicamente em vez de especializar artificialmente os arranjos produtivos.

Outro produto bem conhecido dos distritos de inovação é a gentrificação: explosão do preço dos imóveis e serviços como consequência da chegada dos negócios “charmosos” e “sustentáveis”, seguida da expulsão dos residentes e empreendedores originais, concentração de unidades nas mãos de poucos operadores e assim por diante. Parte dos trabalhadores do Vale do Silício (EUA) mora em cidades menores nos arredores, nas quais os custos de habitação são menores, comutando em deslocamentos diários de duas a quatro horas.

A expansão de oportunidades de trabalho também é alvo de disputas. Estudos sobre os distritos, inclusive no Brasil, indicam o aumento da informalidade e predomínio da ocupação das vagas por homens jovens, universitários, majoritariamente de cursos da área tecnológica. Como gerar oportunidades para os outros estratos sociais? Nos EUA e Inglaterra observa-se o surgimento de uma geração de jovens que não passa mais de 12 meses em ocupação alguma, tamanha a informalidade dos setores criativos e tecnológicos. A proposta de atrair grandes empresas âncora gera apenas outsourcing e callcenters, caso não seja acompanhada de contrapartidas claras para o município.

A centralidade de Goiabeiras é metropolitana, não apenas entre universidades e o aeroporto: conecta Vitória ao contorno e BR-101 norte; é próxima à orla de Camburi, com potencial de inovação turística ainda a ser explorado na interação com roteiros de cobertura estadual; é vizinha a bairros de comércio e serviços importantes, inclusive públicos. A justificativa de criar novas matrizes econômicas limpas parece ignorar que há milhares de negócios na capital que já operam fora da indústria pesada e geram os impostos que financiarão o parque sem participar diretamente de seus benefícios.

O parque tecnológico financiado pelo contribuinte deve estar de portas e competências abertas para apoiar e contribuir para a competitividade de qualquer tipo de empreendimento municipal, seja sua atividade fim intensiva em tecnologia ou não, seja microempreendedor individual (MEI) ou multinacional. Em última instância, o parque não deve prejudicar os empreendimentos existentes no entorno.

Ninguém deve ser contra o parque tecnológico. Devemos questionar as consequências mundialmente conhecidas e indesejáveis dessas iniciativas.

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Comentário

  1. De acordo como […] Ninguém deve ser contra o parque tecnológico. Devemos questionar as consequências mundialmente conhecidas e indesejáveis dessas iniciativas.(Hugo Cristo)